A implosão da Terceira Via

O resultado de criar a tal alternativa viável é que teremos uma eleição decidida entre um espertalhão maluco e um maluco espertalhão.

Eu nunca gostei do termo “terceira via”. Usar termos da construção civil em um mundo controlado por petistas, peessedebistas, pedetistas, emedebistas e similares - e agora unionistas e podemistas - só resultaria em catástrofe. Como eu já disse antes, o Brasil não precisa de mais vias na mesma estrada política. Se não resolvermos criar uma nova freeway, melhor nem tentar.

É o erro que comete o MBL e os movimentos pela democracia (incluindo também os movimentos liberais e anarco-capitalistas, junto com o “O Antagonista”), todos acreditam que poderiam usar o sistema partidário para avançar dentro da política brasileira. No fim das contas, estes funcionam da mesmíssima forma que os partidos nanicos sempre operaram. Eu sei que a intenção deveria fazer a diferença, mas ela não importa.

A terceira via chegou a seu destino

Muitos jornalistas torceram para que uma alternativa aparecesse na política. Nenhum deles contou com os verdadeiros eleitores, aquelas pessoas que dão importância em serem enganadas, que evitam pensar demais sobre qualquer assunto. Já faz tempo que o povo gosta é de picaretagem.

O importante para qualquer candidato é obter votos, e apenas obter votos: pouco importa quem o candidato seja desde que tenha votos. Melhor ainda se for um picareta.

O resultado dessa estratégia será sempre o mesmo: seus candidatos alternativos ou são cooptados pelo sistema, ou serão destruídos pelo sistema. A máxima independência deles é qualquer coisa parecida com um PSOL, e isso nunca é bom. Mas, por outro lado, sempre será um ótimo fundo de investimento (assim como sempre foi o PMDB e o PSOL).

“Bem-feito! Bem feito a todos vocês, sonhadores!” - eu digo. Quem mandou trafegar por essa estrada.

O resultado da tentativa de criar a tal “alternativa viável” aos políticos atuais é que teremos uma eleição decidida entre um espertalhão maluco e um maluco espertalhão. Ambos bons picaretas. Nada novo também. Brasileiro gosta é do espetáculo, não de bom futebol. Brasileiro também não quer pensar grande, fazer algo para as futuras gerações, realmente investir no desenvolvimento de algo que dê orgulho.

Brasileiro se contenta com muito pouco. Basta melhorar um pouquinho e já está bom. A política sabe disso: fazer um pouco mais do que o necessário te faz o craque do time. Do futebol até a política, todos seguem o velho ditado, “prego que se destaca toma martelada se não garantir a governabilidade”. Entenda isso como bem entender, porque, seja qual for sua conclusão, você estará certo também.

Os interesses políticos nacionais já têm raízes profundas. É impossível querer mudar o resultado desse sistema de dentro. Também não surgirá ninguém no sistema que ajude a mudar a situação para a melhor (um melhor de verdade, não apenas melhor um pouquinho). Ainda que exista uma solução, ela não é fácil.

O que política à brasileira?

A verdade, a coerência e a resolução são os únicos antídotos para a política brasileira. É uma empreitada homérica e um trabalho hercúleo. Isso custa dinheiro, tempo e reputação - e não conheço ninguém com sobra para investir nisso. Aliás, já seria difícil demais achar pessoas que saibam o significado de hercúleo ou homérico.

O brasileiro acredita que “paixão” é umas das suas mais importantes características. Ser apaixonado é bom para adquirir experiência e se desenvolver. Manter-se durante a vida como o espírito e a capacidade analítica da adolescência não é uma boa idéia. Quem não se compreende as bobagens da juventude raramente cresce para tornar-se um exemplo de qualquer coisa.

O principal problema da discussão política brasileira é definir o que é política:

  • É a arte e a ciência de governar?
  • É arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido, influência da opinião pública, aliciação de eleitores etc?
  • É prática ou profissão de conduzir negócios políticos?
  • É um fundo de investimento orientado para a obtenção de lucros particulares utilizando a máquina pública?

Seja qual for a sua definição, você vai encontrar um político da sua categoria e, a depender da sua categoria, a política vai muito bem, obrigado, ou não.

Tanto pluralismo e ecletismo parece legal no carnaval, mas quando tratamos da construção de um projeto nacional, bem, aí é péssimo. Ainda mais quando parece que as lideranças políticas brasileiras se preocupam é com lucros particulares advindos da política.

Esses lucros podem ser legais do ponto de vista legal ou cultural (principalmente se você é da turma da Odebrecht e afiliados). Porém isso nunca será o suficiente para resultar em um país desenvolvido - embora seja primordial para manter as coisas como estão.

E quando você precisa do dinheiro da máquina pública, caro leitor, você nunca conseguirá mudar a máquina pública. Não importa o quanto você ache importante sua agenda de desenvolvimento social, econômico ou cultural. Não importa seu projeto vai para a esquerda ou para a direita. O fim dos mirabolantes planos para melhorar o país começam e terminam negociando com as atuais lideranças política, e elas não são tão atuais.

Aliás, essa história é velha e chata demais. Muita gente melhor do que eu já abordou o assunto. E isso também não serviu para absolutamente nada.

Arrumando o Brasil

Brasileiro se acostumou a migalhas. Os pobres recebem migalhas. A classe média sobrevive de migalhas. Os campeões nacionais estão sempre negociando migalhas. As migalhas são diferentes para cada classe, mas a mendicância é idêntica.

O Zé das Couves que precisa de ajuda lá no boqueirão do interior tem a mesma subserviência política de um Emílio Odebrecht. A diferença é a qualidade das migalhas que eles precisam. O Zé precisa de ajuda do governo para não morrer de fome. O Emílio para ganhar mais obras do governo. O ciclo é mais chato e previsível do que a novela das nove.

Como disse antes, arrumar o Brasil custa dinheiro, tempo e reputação. E é difícil achar alguém com muito dinheiro sem estar metido na máquina pública.

Quem tem dinheiro e não depende da máquina não tem tempo para tratar de política, ele já está ocupado demais lidando com o Brasil e seu custo. E quem é rico e tem tempo para isso não quer perder a reputação investindo em gente (ainda que preparadas) mas sem notoriedade na esfera pública para correr o risco dessa gente fazer besteira e manchar a sua reputação.

A paixão da juventude até consegue que certos grupos consigam algum sucesso momentâneo, mas basta entrar no circuito para mudar a sua visão. Contexto é tudo.

Até o movimento anarco-capitalista precisa de candidatos com notória capacidade comprovada de mobilização. Nem a UNE e nem o MBL investem em pessoas sem um número considerado de seguidores. Na política brasileira engajamento é tudo. Uma celebridade é suficiente para vender uma mudança enquanto também elege junto toda a velha política que você conhece.

Estimular uma outra cultura ao mesmo tempo que desenvolve um sistema paralelo à política tradicional é uma empreitada homérica e um trabalho hercúleo. Eu já disse isso. Eu repito isso. Toda belíssima idéia ou boa intenção dos seus tios no WhatsApp e do seu candidato de estimação são mentiras quando não discutem a empreitada homérica e o trabalho hercúleo concretizar isso na política nacional.

O Brasil é uma experiência única no mundo, e isso não é bom. Para arrumar o Brasil é preciso muita experimentação. Brasileiro não gosta de pesquisa & desenvolvimento. Quem tenta mudar isso acaba desistindo sem olhar para trás. Dom Pedro II apenas foi embora. Santos Dummont deixou descendência e nem nota de suicídio. Nossa Academia de Letras só aceita políticos e atores. Acreditar em políticos é um erro.

Nosso fio de esperança pode até ser resistente, mas continua insuficiente. É preciso mais, e isso não existe - ainda.

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