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Aquela turma do teatro

Todos os atores bem-sucedidos têm essa vergonha porque seu trabalho é fácil demais.

No fim dos anos 90 eu me apaixonei pela Charlize Theron.  Culpa da adolescência e de alguns filmes. Fato é que por ela continuei apaixonado por alguns anos, até assistir a uma entrevista em um talk show qualquer. “Como uma mulher tão bonita e com tanto sucesso consegue falar tanta asneira?”, pensei. Meu coração ficou despedaçado, ao menos até eu me apaixonar novamente, dessa vez pela Cylon Número 6, de Battlestar Galactica. Sim, meu coração é assim tão fácil, ao menos quando tratamos de paixões platônicas por personagens fictícios.

Por que os atores insistem em me decepcionar? O amigo do Alexandre Soares Silva tem uma teoria: todos os atores bem-sucedidos têm essa vergonha porque seu trabalho é fácil demais. Ou seja, pagamento pelo trabalho deles, em dinheiro, respeito e fama, é tão desproporcional ao esforço exigido que eles se sentem permanentemente culpados. Parece verossímil, mas eu discordo. Até péssimos atores insistem em falar bobagem. Até mesmo atores fracassados falam idiotices. Nenhum deles consegue se segurar.

Acho apenas que aquela turma do teatro (minha singela generalização dessa tribo) é incapaz de fechar a própria boca. Há uma compulsão por falar todo tempo, a toda hora, em qualquer lugar. Há uma necessidade incontrolável de interpretar e, na falta de um bom texto escrito por um bom roteirista, eles começam a interpretar qualquer coisa que eles se lembrem vagamente no momento.

Se eu mal me lembro do que comi no café-da-manhã semana passada, imagina a turma do teatro filosofando sobre a vida, o Universo e tudo mais.

Se você já foi a uma palestra de um PhD, o último e mais alto título acadêmico recebido por um indivíduo, sabe que ele costuma ler um monte de notas antes de entrar na sala e começar sua apresentação. Portanto, é óbvio que criticar os “rompantes filosóficos” dos atores nas redes sociais só pode ser preconceito contra as fundadas opiniões dessa tribo que sabe mais do que todo mundo, inclusive nós, os meros mortais, não é mesmo?

“Então por que você continua a se relacionar com essa gente, Lefebvre?”, algumas pessoas perguntam. Oras, porque eles são mais estilosos e divertidos, é óbvio. Já no sentido “diametralmente oposto” (eu sei que é uma redundância) a paisagem é a mesma - só que ao invés de Globo de Outro® e Oscar® você tem as graduações, pós-graduações e aquele monte de papéis que atestam por alguns milhares de reais que os alunos ao menos leram os livros (ou o resumo deles).

Em resumo, as duas margens do rio possuem as mesmas tribos. Uma delas gosta de pedagogia e ciências sociais. Na outra louvam economia e administração. Essas tribos vivem um conflito eterno e mortal desde a princípio dos tempos, parece-me.

Enquanto isso eu e muitos outros vivemos nos nossos barcos, aproveitando a calmaria da correnteza, desbravando novas terras. Vez ou outra, algum membro mais radical nos descobre e tenta nos banir da existência. Nunca funciona. Continuamos por aqui, conspirando nas sombras, cochichando piadas engraçadíssimas uns para os outros, aproveitando o espetáculo.

Sim, até mesmo eu sou um artista. Um escritor fracassado, sabemos, mas ainda assim um artista. Por isso sei que, no fim das contas, o que importa para os atores será sempre o aplauso da platéia. Desde que não dê para identificar a origem! Porque todo artista aceita todas as palmas sem questionar. Todas elas, sem exceção - inclusive as minhas. E não adianta negar…

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