Até logo, mamis

A dor e a revolta é assunto dos vivos. E as últimas lembranças também.

Minha mãe nasceu no boqueirão, um lugar esquecido por Deus. Eu passei quarenta anos do seu lado. Eu estar aqui vivo e respirando é um milagre e Deus há de possuir uma boa memória.

Meu avô era bugre. Minha vó, alemã. Eu não conheci meu avô e não me lembro da minha avó. Mas o fato deles serem quem foram tem enorme importância na minha formação. Só consigo imaginar o quão importante isso foi para a minha mãe. Sempre admirei o caráter e resolução que ela mostrou durante a vida. Ser mulher e ter convicção é um desafio no mundo de hoje. Mas não se compara ao que minha mãe superou desde o dia que ela veio ao mundo, naquele lugar esquecido por Deus.

Minha mãe não falava sobre o passado, por mais que eu perguntasse. Tudo que sei foi através de amigos e parentes mais falastrões. Minha mãe confirmava ou corrigia as informações. Honestidade foi um valor que a mãe incutiu, com convicção e método, no meu caráter, o que me trouxe uma revolta muito grande: a vida de pessoas sem caráter parece bem mais fácil e cômoda. Ela entendeu minha revolta. Nunca deixei de ser honesto. Nem ela.

Sei que ela se perguntava por que, logo ela, uma pessoa que enfrentou tanto, sacrificou tanto, precisou ver sua saúde definhar nos últimos anos. Ela nunca reclamou para mim. Mas eu sabia da tristeza. Disse a ela que a vida não é coerente e nem justa, muito menos para quem vive de forma justa e coerente. O que nos acontece não é punição por erros cometidos, ou recompensas pelos nossos acertos. É apenas a vida, na sua magnífica e aparente incompetência em julgar o certo e o errado.

Toda vez que ela era internada no hospital eu me revoltava. Com Deus, com a vida e até mesmo com ela. Se fizéssemos isso ou aquilo, não precisaríamos estar passando por essas provações. O passado faz sentido porque é passado, o presente é sempre o complicado. Eu tenho a certeza de que não quero perder a minha mãe nunca. Ela tinha certeza de que queria viver acima de qualquer coisa. Ao menos nisso sempre concordamos.

Ela tinha certeza de que era uma mãe exemplar. Eu discordava. Eu tenho a certeza de ser um péssimo filho. Ela discordava. Ambos tentávamos fazer o melhor com nossas limitações. Funcionava, às vezes. Noutras, não.

Quando ela voltou para o hospital da última vez eu me revoltei. Os anos realmente me alcançaram. Eu não tinha mais forças. Os sacrifícios não prejudicavam apenas a mim, mas colocou em risco meu filho e minha esposa. E tudo isso poderia ter sido evitado se a gente tivesse feito alguma coisa ou qualquer coisa diferente? Não.

A morte é inevitável. Minha revolta era contra a morte, contra ter que ter a última lembrança. Não saber se hoje ou amanhã seria a última vez que falava com ela, que mexia no seu cabelo, que dava um copo d’água, que dormia no hospital. Também me revoltei com a minha completa impotência de resolver a situação. Talvez a resignação possa ser uma bênção. Minha mãe lutava pela vida em cima de uma cama de hospital, nem eu e nem a minha irmã iríamos deixá-la lutando sozinha. Resignação não é uma qualidade que possuímos.

E quarenta e tanto dias depois ela deu o seu último suspiro na manhã de outro dia qualquer.

No dia 4 de julho minha mãe descansou. E eu fiquei com minhas últimas lembranças.

As últimas lembranças que fecham a vida daquela menina nascida em um lugar esquecido por Deus. Da menina que enfrentava de pés descalços o vento gélido do inverno riograndense para estudar. Que se mudou para o Rio de Janeiro. E depois para o Mato Grosso do Sul. E depois para Pernambuco, Rio Grande do Norte, Distrito Federal. Que foi professora e mudou o destino de muitas crianças. Que criou dois filhos. Que passou quatro anos mimando o neto. Que viveu resoluta, convicta e fiel àqueles que ama. Obrigado por tudo, mãe.

A dor e a revolta é assunto dos vivos. E as últimas lembranças também.

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