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Breaking Bad Habits - Freek Vermeulen

Acabado com os maus-hábitos, desafie as normas da indústria e revigore seu negócio

Breaking Bad Habits, por Freek Vermeulen

“Sempre fizemos dessa jeito e, olhe em sua volta, todo mundo faz dessa maneira! E se esse não fosse a melhor maneira, ninguém mais faria assim”

Freek Vermeulen ouviu isso de um grande executivo. Eu já ouvi isso de grandes executivos. Você também já ouviu grandes executivos, e até mesmo do seu chefe imediato. A diferença entre nós: Freek é professor na London Business School, especialista em estratégia e empreendedorismo. A frase “nós sempre fizemos dessa maneira” inspirou Freek a escrever o livro Breaking Bad Habits: Defy Industry Norms and Reinvigorate Your Business (Acabado com os maus-hábitos: desafie as normas da indústria e revigore seu negócio).

Sorte do Freek que ele não é brasileiro porque, por aqui, o máximo que ele conseguiria era irritar um ou dois chefes (sempre imediatos) com suas idéias. Em Breaking Bad Habits, Freek nos leva numa jornada muito bem escrita (e cheia de provas documentais) de como os maus-hábitos nascem, crescem, se reproduzem e quase nunca morrem nas organizações.

Não se engane, Freek adora organizações. De acordo com ele, organizações conseguiram alcançar resultados inimagináveis, estão em todos os aspectos da vida, são até mesmo fundamentos da própria experiência humana. Ainda assim, são cheias de práticas (a forma de fazer as coisas) ineficientes e irritantes. E os péssimos hábitos se espalham como um vírus, duram décadas, e matam o hospedeiro aos poucos.

Claro que toda empresa ou organização tem suas melhores práticas, e se orgulham delas. Algumas até mesmo são formalizadas, como o ISO, o TQM, o Seis Sigma, Agile, entre tantas outras. Quem discorda? Entretanto, as melhores práticas nem sempre são boas:

Nem sempre esse é o caso [das melhores práticas serem sempre boas]. Algumas melhores práticas são, de fato, ineficientes; algumas delas são estúpidas; o outras são simplesmente prejudiciais.” - Freek Vermeulen

Durante o livro, Freek mostra diversos casos onde os maus-hábitos nas organizações prejudicam e destroem empresas e negócios. Também descreve os mecanismos que permitem a criação e a disseminação das piores práticas, e como o próprio sistema ajuda a tornar perene o que devia ser eliminado.

Um grande exemplo é a gestão da qualidade total (Total Quality Management" ou simplesmente “TQM"), matéria obrigatória para os líderes de plantão. Todo mundo sabe como o TQM revolucionou a indústria japonesa, foi amplamente difundida nos Estados Unidos nas décadas de 80 e 90, inspirou a criação do Baldrige Framework (em que eu me inspirei descaradamente e adaptei para os brasileiros) e, no Brasil, permitiu o surgimento do Vicente Falconi.

Freek Vermeulen é professor de estratégia e empreendedorismo na London Business School.

O que ninguém sabe é que ninguém ligava para as idéias de W. Edwards Deming e Joseph M. Juran, só os japoneses. Nos anos 50 eles foram convidados para palestrar no Japão. Lá encontraram um grande aliado, Kaoru Ishikawa (e o resto é aula de administração). Demorou 30 anos, a recriação da indústria japonesa e a dominação do mercado automotivo americano pelos carros japoneses para que as empresas dos Estados Unidos mudarem sua forma de pensar.

E quando o fizeram, ainda fizeram da forma errada:

Empresas ocidentais se depararam com problemas porque criaram copias imperfeitas do TQM. Normalmente eles adotaram o mais visível, os elementos tangíveis, ou implementaram equipes multifuncionais e permitiram acesso a dados de níveis de qualidade, mas falharam em criar o clima organizacional necessário para que os empregados sentissem segurança para sugerir e implementar melhorias.” - Freek Vermeulen

Portanto, a cópia desastrosa do TQM se tornou inútil, na melhor das hipóteses. Ou prejudicial, na pior delas. Não é a toa que o resultado da intervenção de consultorias especializadas nem sempre é positivo. Na ânsia de copiar o que deu certo e ganhar uma vantagem competitiva, empresas e organizações criam maus-hábitos difíceis de mudar.

Isso acontece, de acordo com Freek, porque as empresas se importam mais com essas três coisas ao invés de compromissos sérios a longo prazo:

  1. A prática está associada ao sucesso: alguém conseguiu sucesso implementando tal prática.

  2. Há ambiguidade causal no setor: ninguém não sabe muito bem por que certas coisas acontecem.

  3. A prática se espalha mais rápido do que mata: o prejuízo dos maus-hábitos não se manifestam claramente no curto-prazo

Acreditar que o sucesso de empresas é a melhor métrica para definir estratégias e objetivos não é inteligente nos negócios. Ainda acreditamos que o mercado se comporta como a seleção natural de Darwin - ainda que reiteradamente diversos estudiosos mostrem o erro nessa crença.

O livro não é apenas uma reclamação (rant) sobre a origem e disseminação dos maus-hábitos. Ao contrário, Freek Vermeulen passa a maior parte da obra mostrando como não cair no erro de criar e perpetuar maus-hábitos além de mostrar como empresas conseguiram o sucesso inovando nessa área (ou seja, matando esses hábitos ruins).

Outro aspecto peculiar é a escrita de Freek Vermeulen. Embora membro da academia, há 20 anos na London Business School, o texto de Freek é bom, fluido, natural, e não aquele linguajar acadêmico pomposo que mais atrapalha do que ajuda (seria isso também um mau-hábito?). Vermeulen escreve tão bem que chama a atenção. A Harvard Business Review Press o descreveu como “um estrategista com um olhar aguçado para o absurdo”.

O livro deveria ser leitura obrigatória para gestores e líderes, mas nem tradução em português possui.

Freek Vermeulen não é unanimidade, muito pelo contrário. Suas observações derivam de outra teoria, que ele chama de teoria da herança (leia aqui), e não a abordagem tradicional que o livre mercado prega “boas empresas sobrevivem, empresas ruins morrem”. Identificar de antemão o que é ou não um mau-hábito é difícil - sempre temos candidatos, mas certeza, só depois de colocar uma estratégia em prática.

Criticar empresas de sucesso é difícil, e fazer isso com a gestão delas é quase impossível. A verdade é, a maioria das organizações não possui uma cultura organizacional competente para identificar e lidar com maus-hábitos. Muitas pessoas só cuidam da própria saúde depois que realmente precisam - então por que seria diferente com nossas organizações?

Se quiser saber mais, basta acessar o site do autor. Ele também está no Twitter, @Freek_Vermeulen, ótima fonte de novos estudos sobre gestão.

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