Como definir o que é ou não um blog?

Não sei se essa é uma dúvida geral, ou se somente eu aqui, no recanto do meu sossegado lar, penso sobre o que diabos é um blog de verdade.

Preste atenção nisso: No último ano e meio, mais ou menos, o Brasil vê a ascenção de um tipo diferente de publicações: o blog. Sim, leitor, as matérias de grandes jornais sempre começam com uma versão dessa frase. No duro. Jornalista pago (e os não pagos também) não sabem escrever, é fato. Uma mudança ali, um gerúndio fora de lugar e pronto, a pauta está “cumprida”. Esse é um assunto que eu adoro analisar.

Não sei se essa é uma dúvida geral, ou se somente eu aqui, no recanto do meu sossegado lar, penso sobre o que diabos é um blog de verdade. Antes era fácil distinguir: uma espécie de diário virtual feito por mulherzinhas. Para ter um blog naquele tempo, você precisava ser macho. Hoje em dia, ai meu deus, todo mundo tem o seu. E o mais espantoso é que vários portais de notícias investem na brincadeira, chamando celebridades para abrir um, onde escrevem vez ou outra, atraindo inúmeros fãs para clicar em anúncios. Até aqui, tudo bem porque, sempre na história, a fofoca sempre foi artigo com alta cotação no mercado. Mas não se engane, aquelas coisas até são verdadeiros blogs, ainda que com conteúdo de qualidade muito duvidosa.

E como tocamos nesse assunto de qualidade questionável, não pude deixar de reparar que vários jornalistas aderiram à onda. Sei que em muitos casos eles hospedam seus blogs em um grande portal, como o caso dos colunistas fixos da Folha de São Paulo, do Estadão, UOL, Terra, Globo, et cetera. Até mesmo o Observatório da Imprensa, quem diria, reconhecidamente o maior crítico da plataforma de blogs, que notoriamente sempre pôs em dúvida o valor das informações dessas páginas, agora tem um número considerável de blogueiros no seu hall. Mas até onde esses sites podem ser considerados blogs? Onde está a fronteira que delimita um blog e uma seção de um site de notícias?

Um dos executivos da Microsoft gerou uma baita discussão quando lançou as seguintes regras para uma coisa ser considerada um blog ou não:

  • Facilidade de se publicar na internet
  • Discoverability. (Não deu pra traduzir, significa que ele avisa os serviços de blogs como o weblogs.com or technorati toda santa vez em que é atualizado).
  • Conversabilidade. (As pessoas podem conversar com o blog, seja por comentários ou trackbacks).
  • Linkability. (Também não deu pra traduzir, é o fato que cada texto deve ter seu link específico).
  • Syndicatability. (Ora, também não dá: significa que o blog tem que ter um feed, um RSS, para se poder assinar).

Bom, você concorda? Eu, sim, mas devo acrescentar um sexto ponto, talvez ainda mais importante que esses. Sem dúvida nenhuma um blog deve ser fácil de se publicar (e isso ajuda muito quando grandes empresas de mídia fazem os seus, pois o custo é zero). O Brasil, lerdo como sempre, pouco usa o Technorati e similares, mas é essencial aparecer nesses índices de blogs. Comentários também são importantes, mas não só como masturbação do autor, mas como um meio para outros blogueiros colocarem suas opiniões e links. Precisam ter espaço para o nome, e-mail e SITE do comentarista. E a importância do RSS é algo que eu já dissequei nesse texto.

Mas como eu disse, existe um outro quesito, talvez mais importante do que todos esses: é a pessoalidade. Um blog precisa ser, acima de tudo, uma expressão pessoal. O que isso significa? Simples, meu caro padwan, um blogueiro que se preza deve ter como única diretriz para escrever a da total liberdade.

Calma aí, leitor. Não se precipite em discordar de mim. Não digo que eu preciso, obrigatoriamente, muito bem escrever sobre xurumelos amarelos hoje e, amanhã, analisar a Crítica da Razão Pura de Kant sobre os olhos naturalistas do séc. XIX. Não, não, não. Eu posso fazer um blog com assunto restrito, como tecnologia, literatura, cinema, política ou, até mesmo, xurumelos amarelos. Mas o meu texto, o meu ato de escrever, não sofre influência de nada e de ninguém.

Isso pode até parecer natural para quem não é jornalista, acadêmico ou simpatizante do PT. Mas para essa gente, ter esse tipo de liberdade é impossível. Artigos acadêmicos obedecem sua lógica própria: na faculdade você só cita, no mestrado você diz que está citando e, só no doutorado, você pode falar em primeira pessoa. Os jornalistas estão sempre presos à manuais de redação e linhas editoriais que exigem que você só discorra sobre tal assunto dessa determinada forma. Êta profissão dos infernos. Só não é pior que o esquerdista, que não pode pensar, não pode perguntar e, nem mesmo, responder por conta própria. Até o uso das regências verbais é assunto controlado pelo partidão. Experimenta ir pra “cuminidade” lá no “suburbiu” e usar o subjuntivo pra ver o que é bom pra tosse.

Bom, de acordo com essas premissas, como acham que me sinto quando entro nos blogs do Observatório da Imprensa, por exemplo? Eles não diferem em nada do conteúdo principal, seja na forma, nos textos ou nas terríveis análises. Os comentários só falta pedir o CPF e nem espaço pro seu site tem. E se você coloca o endereço no comentário, o querido moderador lasca ele fora (se o texto todo não for junto, claro).

O Blog do Noblat entra na lista de questionáveis que até podem ser. Tem tudo ali, RSS, comentários (que tem o mesmo problema babaca do OI), mas não tem nada, nadinha de pessoal. Ele segue a cartilha jornalística e, portanto, em nada difere de qualquer coluna de jornal. A diferença é que, vez ou outra, temos assuntos em primeira mão por causa da facilidade e rapidez do blog. Mas segue os manuais tim-tim por tim-tim.

O ex-blog do César Maia (desavenças políticas a parte) era um blog. Pessoal até quando dava um número.

O do Reinaldo Azevedo é um blog, porque, ai meu deus, como aquele cara escreve. Há pouco tempo ele fez uma cirurgia para retirar uns tumores no cérebro. Minha desconfiança é a de que o médico implantou um laptop na cabeça dele, conectado a internet 24 horas por dia. Esse sim sabe diferir o ato de escrever para um impresso e manter um blog.

Não vou mais citar exemplos. Meus leitores sabem navegar muito bem pela internet e saber o que é ou não um blog. Mas aqueles que entram em contato com eles através desses “blogueiros famosos” podem começar com uma noção completamente errada da coisa. Compram gato por lebre. Aí se assustam quando pegam um blog com personalidade - como todos deveriam ser, mas não são.

Esse fenômeno ainda vai durar um bom tempo. Quanto eu não sei precisar. Mas aguardem uma invasão desses blogs de ocasião por causa das eleições. Até mesmo o José Dirceu disse que vai criar um. A minha dúvida é: ele vai fazer companha ideológica ou realmente contar os bastidores da vida dele. Quem sabe, assim, termos a certeza de que Lula, afinal, saberá de alguma coisa. Pouca que seja.

Opa, acabo de lembrar que o Lula nasceu de mãe analfabeta e não evoluiu muito desde então. Esqueçam. Vai continuar tudo da mesma forma que está. Como sempre foi e como sempre será. Pra frente mesmo, só nossos blogs. Ainda bem.

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