Como despiorar a sua vida em 1 passo

Não importa se você é um justiceiro linguístico, "despiorar" é simplesmente errado e não é novidade alguma.

Toda vez que leio o tal verbo “despiorar”, volta à minha mente Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues. Otto Lara Resende adorava “despiorar” os textos. Por escrever muito bem, “despiorar” na sua conversa era apenas gargalhada, uma palavra construída de forma errada para fazer graça da urgente e inútil necessidade dos escritores em lapidar seus escritos.

Não importa se você é um justiceiro linguístico, “despiorar” é simplesmente errado e não é novidade alguma. Vinicius Torres Freire usa esse neologismo desde 03 de março de 2009. E isso vale a mesma coisa do que usar “att.” como abreviação de “atenciosamente”.

Despiorar é apenas errado. Mas da mesma forma que o “att.”, o erro sempre depende do pedigree.

Se é o chefe usando att ou despiorar, quem tem coragem de mandar ele at.te à merde?

Mas voltemos ao que importa, Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues. Esses dois tinham uma amizade invejável. Aliás, se me permitem um neologismo, não existe trolagem maior do que “Otto Lara Resende, ou Bonitinha, mas ordinária”. A amizade quase terminou em tragédia por causa da tragédia do Nelson. Mas os dois conseguiram “despiorar” o episódio e continuaram amigos até morrerem.

O que nunca despiorou foi o Brasil e os brasileiros. Quem me dera que “despiorar” fosse o maior problema do país. Quem me dera que o brasileiro fosse solidário apenas no câncer. Nesse cenário ainda teríamos alguma esperança.

Mas criativo como é o brasileiro, inconformados com a tal “toda unanimidade é burra”, resolvemos criar a “dunanimidade”, um neologismo ainda pior e quase impossível de despiorar. Quando unânimes, os brasileiros estão imbuídos do mesmo espírito e agem conjuntamente como um todo indiferenciado.

Quando dunânimes, os brasileiros se imbuem do mesmo espírito e agem conjuntamente como um todo indiferenciado - e acreditam estar fazendo exatamente o oposto.

É como o dilema de Edgard. No fim das contas, o arco da peça não vale nada. O verdadeiro dilema sempre esteve entre o espectador e a peça. E não há muitas opções. Otto resolveu assim seu dilema, “entre ficar indiferente e matar Nelson Rodrigues preferi o 1º: como o homicídio é punido pelo código penal, optei pela indiferença”.

Contra o “despiorar”, eu nada posso fazer. Vinicius continuará a usar enquanto a unanimidade continuará a criticar. Nenhum dos dois usarão as flexões corretas dos verbos, e nenhum problema brasileiro será resolvido. E como os tempos atuais provam, o brasileiro não vai tomar jeito nem quando o mundo acabar.

E isso me faz preferir também o 1º.

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