Devo pagar por cursos de Soft Skills?

Você não desenvolve Soft Skills sozinho. Busque ajuda agora!

Hoje você acordou e descobriu que o mercado de trabalho resolveu exigir mais uma qualidade para ter um emprego. Agora a exigência da vez é ter soft skills. Tudo bem, você pensa, vou procurar um livro, fazer um curso e pronto. Mais um certificado no meu currículo que mudará minha carreira para a melhor.

Errado. E dou cinco razões para mudar sua opinião.

Empresas exigirem soft skills é a nossa nova realidade. E quando a ciência da Administração se encontra com um conceito intangível e imensurável, acredito que a receita do desastre ficou pronta e logo tudo irá pelos ares. Administradores e geral são binários, adoram uma causa e efeito, mesmo que a causa do efeito seja completamente diferente do que dizem os relatórios. Soft skills agora são mensuráveis e tangíveis, mesmo que ninguém consiga me explicar como (eles até tentam, mas não convencem).

Se você acha que desenvolver soft skills é simples, talvez você mude de opinião se ver quantas o mercado exige: agilidade, atitude, comunicação, resolução de conflitos, pensamento criativo, pensamento crítico, tomada de decisão, eficacidade (o nome da moda é growth hacking), efetividade (não confundir com eficacidade), empatia, ética, flexibilidade, honestidade, resiliência, liderança, motivação, negociação, rede de contatos ATIVO (ou como usar o LinkedIn para criar uma network ativa e engajada), paciência, persuasão, positividade, solução de problemas, trabalho em equipe, gestão de tempo, entre outros.

Você já notou que, por mera coincidência, assim sem querer, há um curso específico para cada uma dessas competências?

Mas você consegue desenvolver soft skills, sim. E se tornar um profissional melhor. Uma pessoa melhor. Basta você clicar aqui e aproveitar essa oportunidade única POR UM PREÇO PROMOCIONAL DE LANÇAMENTO que terminará em três, dois, um – GARANTA JÁ ESSA PORTUNIDADE ÚNICA CLICANDO AQUI!

E você vai pagar por cada um deles...

E não vai obter resultado nenhum.

A não ser que você entenda os cinco princípios abaixo. Somente assim você conseguirá algum valor desses cursos – sim, eu sei que, de qualquer jeito, você fará ao menos um desses cursos.

Você vive em uma bolha e as soft skills estão em outra galáxia.

Imagine que você é um planeta, afinal somos seres tão complexos, não? Bom, somos um planeta que gira em torno do sol das nossas crenças, valores, traumas, esperanças. Na nossa galáxia há 100 bilhões de planetinhas, cada um com sua estrela para girar em volta. No universo há 1 trilhão de galáxias.

Mas a bolinha de cada um é a coisa mais importante do mundo, não? É importantíssimo cuidar do nosso umbigo. Por causa disso, os algoritmos do Google, Facebook, Youtube e similares sabem que melhor do que nos ajuda a achar o que precisamos é nos dar aquilo que queremos. Eu sei que você acredita de verdade ser uma pessoa bem informada. Na realidade, você é: é uma pessoa informada pelos outros.

Mesmo depois de girar tantos anos em torno do mesmo sol, você ainda acredita que conseguirá soft skills na sua zona de conforto? Que seguir o conselho de se autoconhecer é suficiente para descobrir que competências de relacionamento você deve desenvolver?

Vá para outra galáxia! Conheça novas pessoas, gente que se comporta diferente das que você conhece. Mas é preciso ir longe. Estar aberto para perceber essas diferenças. Entender o porquê dessas ações e como agir da mesma forma te tornaria melhor.

Quanto mais perto, mais o comportamento será igual ao seu. Quanto mais distante, mais diferente as pessoas e, portanto, suas ações. Ir onde nenhum homem jamais esteve (ou seja, você) pode ser apenas dar um pulo na esquina e realmente ver como as pessoas da padaria se comportam. As vezes resolve.

Cursinhos e palestras fornecem armas que não desenvolvem soft skills, só pioram as que você já tem.

Na Segunda Guerra Mundial pessoas comuns precisaram lutar contra o Nazismo. Pesquisas demonstraram que os soldados evitavam atirar para matar. No duro. Mesmo enfrentando a morte cara-a-cara, pessoas comuns não estavam à vontade com a idéia de acabar com a vida de outro ser humano. E isso aconteceu em ambos os lados.

Mas pessoas mataram e morreram e os soldados voltaram com um distúrbio psiquiátrico seríssimo, condições ocultadas pelos exércitos durante décadas. Hoje conhecemos essa condição como transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Esse é um assunto sério, que não deve ser levado na brincadeira.

Você pode realizar um curso de programação neurolinguística, de comunicação eficaz, a arte de negociar e engajar pessoas, etc. Mas, no fim, são apenas ferramentas, ferramentas que os estelionatários também usam para conseguir resultados. E as pessoas comuns não atiram para matar, ou, no meio corporativo, para atingir metas, só porque o comandante quer.

A gigantesca pressão do mundo dos negócios pode nos fazer esquecer dos nossos valores. E, sem entender como, você ficou preso num ambiente hostil e fará o necessário para sobreviver.

A TEPT aparece nas pessoas que viveram cercados de situações traumáticas como agressão, violência ou morte. Não acredito que você vá agredir ou matar ninguém no seu trabalho, mas o uso dessas armas pode ser uma violência contra você mesmo, seus valores e suas crenças. E você irá pagar essa conta no futuro: depressão, burnout, ataques de pânico, ansiedade, ataques cardíacos. Sua consciência sempre cobra o preço.

Quando usamos as técnicas e ferramentas para melhorar a nossa vida e dos outros a nosso redor, estamos aplicando as soft skills. Quando somos egoístas e só queremos resultados, você usa armas. Você é violento, apesar da fala mansa e das suas “melhores intenções”. Você não se relaciona ou influencia pessoas, você as usa.

Você precisa de outras pessoas para se desenvolver. E seus amigos não contam.

Eu tinha amigos diferentes um dos outros, com quem podia conversar sobre os mais diversos assuntos e eles continuariam meus amigos. O mundo mudou. Tudo é polarizado. Experimente no meio da sua conversa com os amigos de um grupo específico (MBL ou Esquerda, Vasco ou Flamengo, Azul ou Branco, Católico ou Evangélico, Comercial ou Operacional, Sindicato ou Diretoria, tanto faz) dizer a seguinte frase: “vocês não acham que talvez, nesse ponto específico, eles tem razão?

Você acaba de abrir a porta do inferno. Você acabou de perder alguns desses seus amigos.

Ninguém quer perder amigos. Ninguém quer perder importância no grupo. Sim, você não está tão à vontade com seus amigos como você gosta de pensar. Mas você quer desenvolver soft skills, melhorar suas qualidades, poder influenciar positivamente as pessoas. Atingir seus objetivos de forma honesta.

Então você precisa treinar as habilidades de comunicação, empatia, resolução de problemas. E as habilidades evoluem nos desafios. Os estranhos, por mais contra intuitivo possa parecer, são pessoas mais dispostas a te ajudar do que muitos amigos. Elas ouvem o que você diz, conversam sobre a questão, ao invés de julgar e se ofender. “Você é meu amigo, como pode dizer/pensar uma coisa dessas”, seus amigos ofendidos dirão. Já o estranho pode sair da conversa com uma melhor impressão da sua pessoa. Não é para isso que existe soft skills?

Ainda não está convencido que seus amigos não são sua melhor opção? Quantos cursos e palestras você já viu na sua empresa? Quantas vezes você conversou com colegas e eles ou você mesmo não gostaram nada do curso e tem a certeza de que isso vai dar errado? O que aconteceu quando você emitiu essa opinião para seus chefes?

O problema era o curso ou era a pessoa reclamona que não se permitia evoluir?

Você não julga livros pela capa, muito menos por um processo de recrutamento focado em soft skills.

Você fez sua auto-análise e definiu que seu problema na soft skills é uma qualidade específica. Por causa dela você não tem sucesso na sua carreira.

Um bilionário homem de negócios disse certa vez que exigia de todos os que trabalhavam com ele uma apresentação impecável. Assim como os prédios que construía, seus colaboradores diretos precisavam entender a importância que suas imagens causam no negócio dele. A perfeição é um atributo essencial e deve ser refletido nos seus melhores funcionários. Todos seguem a filosofia desse homem. Menos o melhor geólogo da empresa.

Esse geólogo responde diretamente ao bilionário, mas não parece com nenhum outro membro da diretoria. O geólogo não usa ternos, tem barba, cabelos compridos. Por causa disso já fora demitido de outras firmas. O bilionário até tentou mudá-lo, mas desistiu. Era a sua natureza. Era assim que ele realizava o melhor trabalho da área.

O bilionário ri quando conta a história, mas não se divertindo às custas do seu melhor empregado. Ele ri da burrice das outras companhias. O cara é o melhor do mundo e trabalha para ele, não para concorrência. A concorrência desmereceu um profissional por causa da sua aparência. Hoje o geólogo trabalha para ele, ele repete com orgulho, como se tivesse descoberto um grande diamante bruto. Bruto, mas extremamente valioso. Juntos ganham milhões de dólares. Isso é soft skills.

Soft skills do homem de negócios, é claro. Do geólogo posso dizer que ele fez uma escolha de vida. Já o homem de negócios viu além do óbvio. Se você quiser enumerar todas as soft skills que o bilionário usou para identificar o ótimo profissional, fique à vontade.

A visão binária da Administração criou os processos de recrutamento. Usando entrevistas, dinâmicas de grupo, desafios desenvolvidos por psicólogos, especialistas e dados históricos, todos eles prometem achar o funcionário ideal para o sucesso da sua empresa.

Com isso, os candidatos buscam melhorar suas soft skills, preocupados com os resultados, como as avaliações, com seu comportamento, se parecem forçados ou naturais. Tudo isso cria uma confusão dos diabos na cabeça desses candidatos e, possivelmente, aquele geólogo seria eliminado já na primeira fase.

Há bons processos de recrutamento, mas com certeza eles não são a maioria. E o candidato que investe meses num recrutamento e é contratado, com certeza vai investir no emprego, mesmo que no fundo ele saiba que isso não tem nada a ver com ele. A empresa sai perdendo, a pessoa sai perdendo. Nessa história toda, somente os recrutadores saem felizes com seu trabalho.

Na verdade, você já tem todas as soft skills, a questão é por que você não usa nenhuma delas!

Você fez sua auto-análise e descobriu o que falta para ser um sucesso no mundo profissional. Você fará o curso e um novo mundo abrirá na sua frente. Sinto ser eu a dizer isso, mas não, isso não vai acontecer. Sorry.

Desenvolver soft skills requer tempo, muito tempo. E você já perdeu tempo demais na sua vida. Cursos e palestras não são atalhos. Atalhos não existem. Você precisa de comprometimento, oportunidade e tempo para melhorar qualquer uma dessas habilidades.

Você aprende cálculo estrutural na faculdade de engenharia e sabe aplicar a física dos sólidos para construir uma obra que não desmorone. Esse conhecimento é finito, já que essa física é finita, mas suas aplicações são inúmeras. Soft skills em teoria seria finita, mas não é. Ela só se torna uma soft skills com a prática infinita.

Todos já aprendemos essas as habilidades, chamamos isso de educação. Se não aconteceu em casa, a vida já tratou de ensinar. A questão é se você já deveria ser um profissional. Se não aprendeu, você deve descobrir o porquê.

Fiz meu primeiro curso de neurolinguística com 13 anos de idade. Isso me qualificou para ser um nerd certificado e o saco-de-pancada da escola (antes bullying era parte da nossa educação). Mas no meio da guerra da vida escolar, eu usei minhas armas com extrema eficiência. Eu fui promovido à turma do fundão mesmo sendo um cdf de carteirinha.

Na vida profissional minhas armas continuaram valiosas. Mas como era armas, constantemente eu me via do outro lado da linha dos meus valores. Tinha amigos que não compartilhavam os mesmos valores que eu. Trabalhava fazendo o que eu menos queria, mesmo bem remunerado. Confundia astúcia com inteligência, ludibriava para atingir as metas. O ambiente e as pessoas fazem parecer normal aquilo que nem é certo. Claro que a vida cobrou o preço, e me vi com sérios problemas, tanto profissionais quanto de saúde.

Somente quando entendi que essas habilidades não eram armas para conseguir o que queria à revelia dos outros, mas qualidades que deveria levar dentro de mim para se tornar parte de quem eu sou consegui equilíbrio e paz. Sucesso financeiro ainda está num futuro distante, mas equilíbrio e paz é mais do que suficiente.

Quais são seus valores? Se você usa as soft skills como meio para um fim, e não como uma qualidade para se relacionar com pessoas, inevitavelmente você irá perder a motivação que traz o sucesso. Em algum ponto no futuro seu trabalho, sua carreira, seus amigos e amores não farão mais sentido. Eles serão tão superficiais quanto sua forma de abordar o mundo. Quando esse dia chegar, você nem saberá o que te levou a essa situação.

Então eu faço o quê? Oras, busque ajuda agora!

Acho que já conseguimos entender que soft skills nada mais é do que a capacidade de criar bons relacionamentos. Relacionamentos impulsionam nossa vida. Não é preciso ser o melhor orador, a pessoa mais bonita ou ter a personalidade mais agradável.

No começo não queremos sair da nossa zona de conforto. Então, você certamente começará com livros sobre o assunto. Quem sabe até decore os livros do Daniel Goleman. Depois vai atender a uma Masterclass. Quem sabe, investirá num curso de PNL, comunicação, solução de conflitos. Contratará um coaching. Discutirá o assunto na sua terapia. Ótima oportunidade de cair na armadilha do conhecimento.

Mas nada disso irá te desafiar. Você continua dentro da sua bolha. Quer sair dela? Você precisa praticar no mundo real onde você não tem o controle. E mais da metade das pessoas tem pavor até em pensar nessa possibilidade.

Nós, seres humanos, aprendemos através da observação. Desde crianças observamos como os outros se comportam e tentamos emular os comportamentos com melhores resultados. Aprendemos bastante até crescermos e o medo e a vergonha de fazer papel de bobo tomar conta. Aí paramos.

Há dois caminhos interessantes. A primeira forma é achar um mentor, e nem todo mundo tem um. Seu mentor deve ser o seu exemplo de soft skills, estar disposto a te ensinar como ele faz o que faz e, você, estar disposto a aplicar os ensinamentos e reportar os resultados. É uma relação de pai para filho. Como é difícil achar um mentor hoje em dia.

A segunda opção é o Dale Carnegie Course. Pode começar com os livros do Dale Carnegie, o que recomendo. Se você achar coragem para sair da zona de conforto, matricule-se. São três meses de aprendizado prático, que colocará em xeque suas próprias virtudes e fraquezas. São três meses compartilhando com outros vinte desconhecidos os desafios de melhorar sua capacidade de relacionamento. Nada melhor do que observar e ser observado para entender onde e como melhorar.

O quê? Achou que ia ser fácil? As melhores mentes desse mundo irão concordar que o mais difícil no mundo são as pessoas. Einstein mudou a realidade do universo como conhecemos, mas levou dez anos para conseguir emprego como professor, e não foi por causa das suas habilidades de relacionamento, pode ter certeza.

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