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Entrevista Diogo Mainardi

Nessa entrevista, Diogo fala sobre a vida, literatura, o lado pessoal do famoso colunista

A entrevista foi publicada em 2003

Diogo e Mainardi, 42 anos (na época), pode não querer, pode discordar, argumentar o contrário e até brincar com o fato. Porém, é mister reconhecer que ele, agora, faz parte do rol de jornalistas que deixam ecos atrás de si. Basta tocar em seu nome e começam os comentários. Dos mais fajutos aos mais intelectuais. Gostariam os mais reacionários, que o acusam de ser reacionário, que Diogo fizesse algo mais produtivo com sua inteligência (ou simplesmente calasse-se). Já outros encontram nele o ótimo crítico, alguém que preencheu – e muito bem – um espaço desprezado e esquecido na imprensa brasileira.

Apesar de todas as comparações, do sucesso de sua coluna semanal, das suas críticas ácidas e debochadas, só mesmo conhecendo-o para ter idéia mais próxima de quem é Diogo, o escritor aventureiro, o brasileiro crítico, o pai dedicado – o homem que acredita que a ironia sempre perde, no final. Um “doce de pessoa”, educado, elegante, maneiroso – sempre de bom humor. Foi num café em Ipanema, depois que um leitor veio cumprimentá-lo pela sua coluna, que Diogo comentou, após agradecer de forma acanhada (não por arrogância, mas pelo simples fato de talvez ainda achar tudo muito estranho): “agora é sempre assim. É incrível. Depois da televisão…”

Diogo é um homem reservado. “Eu falo no limite da minha necessidade de financiar a minha vida. Eu não dou mais entrevistas do que eu preciso. Eu não me exponho mais do que eu preciso”, diz. Quando as pessoas o chamam para jantar, esperam uma companhia estimulante. Ele e sua mulher brincam com o fato: “mas encontram a pessoa mais aborrecida do universo”. Diogo fala pouco – mesmo assim já tem a sua marca registrada. “Eu só me manifesto com algum tipo de estímulo pecuniário, isto é, quando estão me pagando para ouvir a minha opinião a respeito de um assunto e só. Do resto, eu fico calado.”

E foi assim que me convidei para entrevistá-lo, esperançoso de que ele falasse algo mais do que já disse. E pelo telefone, defini a intenção da entrevista: não falaríamos de política. Recebi um curto e enfático “ótimo!”. Assim, alguns dias depois, fui ao apartamento de Ipanema e cheguei no meio de uma revolução estavam trocando os vidros da janela da sala, pretos por causa da maresia acumulada durante cinco anos, durante os quais o apartamento ficou fechado, antes de alugarem para ele. “Eu pago um IPTU caríssimo, então quero ver a praia”, brinca. Nervoso, eu não noto a barriga da Ana, seis meses de gravidez. “Você achou que minha esposa é gorda? Vou contar para ela?”, ameaça, “vamos ter outro filho”. Minha cara vai ao chão. Depois, coloco o copo d’água em cima das anotações. Desisto. O Papel do Papel

Fomos para o escritório, onde umas centenas de livros esperam por algumas estantes. É tudo muito simples. “Talvez o Diogo também não goste de móveis”, penso eu. Mas ele já explica de antemão que quase tudo é emprestado. “Tudo que é meu está trancado lá na casa de Veneza”. Ligo o gravador e partimos para a entrevista. Repito a velha máxima do Diogo Mainardi Eu não vou dizer nada de importante. Ele completa prontamente: “disso eu tenho certeza”. Então, replico: “você se contradiz sempre?” Ele pensa e responde:

– Sobre as questões essenciais, nunca houve contradição. Ou nada de relevante.

Nisso, o entrevistador burro vê que não sabe formular uma boa pergunta.

– Não sobre o que você escreve – tento consertar – mas a sua opinião sobre o que você escreve. Você costuma dizer que não diz nada inteligente. Entretanto, fica contente quando uma parte do seu trabalho funciona? – Sem dúvida – responde ele – eu fico contente porque eu trabalho no meu limite, no limite da minha capacidade, das minhas ambições. Eu desde o começo quis fazer uma literatura muito livre, que não fosse presa a nenhum tipo de esquema, que fosse uma aventura para mim. Sempre pensei nos meus livros assim. Quando comecei um livro ele sempre foi uma… sempre busquei um caminho para mim desconhecido. Então quando eu fazia uma descoberta, quando as pontas se amarravam – tudo isso dá um prazer muito grande. Quando você está em um romance e você vê que as coisas têm uma ordem, que fazem algum tipo de sentido era muito prazeroso. Que do acaso podia nascer uma coisa, um sentido uma ordem. Eu vi que minha cabeça tinha uma ordem, na verdade…

Mainardi, na sua forma de escrever, difere da maioria dos novos autores. Assim como Flaubert, que demorou quatro anos para escrever Madame Bovary, ele também demora um pouco para concluir suas obras:

– Eu sempre programei muito meus livros. Eu levei mais ou menos três anos para escrever cada um. Um ano e meio, mais ou menos, eu gastei pensando nele, no arcabouço, na estrutura. Tomando nota, mas não de estilo. Só personagens, história e conexões.

A pesquisa, etapa fundamental para se escrever um livro, estava reservada para a segunda fase da produção. “O grande barato do primeiro um ano e meio era pensar com liberdade, pensar o que me interessava explorar”. Esses dois aspectos ainda o acompanham em sua coluna semanal:

– Nesse aspecto, sim: A liberdade de abordar qualquer tema, de matar um personagem, de punir um personagem, e de inverter os lugares comuns. Isso me vem naturalmente. Mas o resto da experiência literária não. Bom, a literatura me deu uma disciplina muito grande para a pesquisa. Então – diz com um sorriso irônico – eu tenho uma disciplina para pesquisar informações também.

Arquipélago, seu livro agraciado com o Prêmio Jabuti de 1990, o mais importante prêmio concedido a escritores no Brasil, não é o mais criticado, e sim Polígono das Secas. Nele, Diogo Mainardi não tentou, ele acertou em cheio um ícone da literatura nacional: a literatura nordestina. Choveram críticas negativas (enquanto no nordeste não caia nem um pingo, seja de água, seja de solução), acusações que ele quis denegrir a imagem do nordestino, de que não leu (ou não leu “corretamente”, seja lá o que isso quer dizer), autores como Gilberto Freire, Guimarães Rosa. Perguntado novamente sobre isso, ele responde:

– Não só – diz com segurança. Eu usei toda a literatura nordestina. Toda ela. Eu li na minha juventude, reli para fazer esse livro. Usei a literatura nordestina como representação nacional da nossa cultura. E é uma das poucas escolas que a gente teve. Uma escola mesmo, com começo, meio e fim. Não é uma coisa muito comum em um país tão pouco literário como o nosso ter uma verdadeira escola. E essa foi.

– Então, pergunto, não existe isso de “preconceito seu contra o Nordeste”?

– Não. Imagina. Eu tenho uma posição crítica sobre o meu país e minha cultura. E o Nordeste, nesse caso, deu mais que o resto do país –aí, eu penso em voz alta no João Cabral [de Melo Neto], e Mainardi continua daí – Eu gosto do João Cabral, acho ele um grande poeta. Eu desmonto alguns dos princípios sobre os quais são construídas as obras sertanejas, inclusive a dele. Mas isso não exclui o fato de ser um grande poeta.

A crítica literária brasileira costuma enaltecer o caráter “social” de nossas obras. Alguns deles vão além. Colocam nesse fato a razão de não ter o Brasil uma tradição na literatura fantástica, por exemplo, ou nas áreas em que a imaginação é mais importante do que a realidade. Sobre o engajamento social da nossa literatura, Diogo é categórico:

– A nossa literatura é a literatura demagógica e a melhor representação é a literatura nordestina. É miserabilista, ela é piedosa, tem piedade pelo pobre. Não é uma literatura engajada realmente. Paternalista, demagógica. Isso tudo sempre me incomodou muito. Não tem um real interesse pela massa, inclusive é manipulada para conquistar favores políticos. Nossos escritores sempre tiveram um histórico de associação com o poder.

Mas, propondo-me a servir de advogado do diabo, digo que, para os críticos, que o trabalho era apenas uma forma para eles se sustentarem, para financiar o tipo de literatura que eles queriam fazer. Mainardi continua:

– A nossa literatura foi sempre muito escolástica, e isso daí era uma medalha para quem queria fazer algum tipo de carreira em outra área. Essa literatura de Fardão é muito característico nosso, o discurso empolado, do engano. Não é uma literatura franca, aberta. É algo que serve de trampolim para conseguir alguma outra coisa. Gente parasitária que quer conseguir algo em troca. Sempre foi uma moeda de troca. Não é uma literatura pura. É para conseguir posições de poder, ou para se associar a alguém que tenha posição de poder, o que é pior ainda.

Mas alguém conseguiu escapar disso? Mainardi diz que sim. “Eu sempre digo isso. Eu acho que a literatura brasileira é melhor do que o Brasil. Tem coisa mais interessante na literatura do que no país. E eu sempre cito sempre os mesmos autores. Não vale a pena repetir.”

Mas eu repito: Machado de Assis, Clarice Lispector, João Cabral, Lima Barreto – e aqui, sou interrompido.

– O meu último livro (Contra o Brasil) é um Policarpo Quaresma ao contrário. Acho o Policarpo o melhor romance da literatura nacional, e eu não tenho a menor dúvida sobre isso. Na minha cabeça, foi o único romance que conseguiu exprimir a nossa busca por uma cultura própria, e é uma busca para a glória do livro, é uma busca fracassada.

Lima Barreto, apesar de valorizado hoje, foi marginalizado na Semana de 22, exatamente por causa da sua literatura. Mainardi, ao contrário do que se pensa, não é pessimista quando lhe pergunto se esse é o destino de quem faz verdadeira literatura no Brasil.

– Não. Tem tão pouca gente, é tão pequeno o mundinho literário que você consegue se distinguir de alguma maneira. Hoje você consegue acordos, arranjos. Eu, que teoricamente sou um autor marginal, estou na Veja, na Rede Globo. Então não existe muito isso aí. Tem pouca gente letrada no Brasil, alfabetizada. Quem tem esse instrumento consegue posições de poder. Usando direito isso daí…

Ele ri, e completa:

– Você anda pela Viera Souto e olha para as janelas dos apartamentos e não vê uma biblioteca. Ninguém lê nesse país.

Novos Ventos

Como o assunto tomou um rumo perigoso para a entrevista, tentando ultrapassar a tênue e indeterminada linha que separa a política da literatura, resolvo fazer a pergunta mais babaca que se pode fazer a um escritor:

– De onde surgiu a vontade de escrever?

– Tudo porque eu era um grande leitor. Leitura. Eu gostava de livros, era o que me atraía. Em casa tinha muito livro. Minha mãe era uma grande leitora, então eu tinha todos os clássicos a disposição. Eu tive minhas fases, como todo mundo. Tive minha fase Dostoievski, tive minha fase Kafka, tive a minha fase Thomas Mann, tive minha fase Tolstoi, e passei por eles com entusiasmo a cada vez que encontrava cada um desses autores.

“Por sorte a biblioteca da minha mãe era muito variada também. Então, quando eu tinha 13 anos, na época da ditadura militar, em que eu descobri que livros poderiam dar ‘cadeia’, fiquei atraído. Essa coisa meio pornográfica. Então eu ia para a biblioteca da minha mãe e procurava os livros que davam cadeia! Tudo livro comunista. Eu li bastante nessa época a literatura de esquerda européia. Me interessou muito, coisa de punheteiro mesmo, porque era sacanagem, porque podia dar prisão! Essa foi outra fase.

“Depois disso, depois de ter feito uma bagagem mais clássica e mais tradicional em casa, eu tive a sorte de encontrar um tutor que me apresentou a literatura do século XX, que eu praticamente não conhecia, a não ser pelos grandes clássicos do século XX. E daí eu comecei a descobrir os meus livros, que não foram indicação do Ivan Lessa. Foram por curiosidade bibliográfica. Quando você encontra um livro que você goste, ele sempre, sempre, remete a outro, e daí a outro, e a outro, e você acaba criando uma cadeia de interesses e de livros, e descobre qual é a tua. E eu descobri qual era a minha aos 22, 23 anos, depois de ter lido bastante coisa. E nesse meio, como leitor, acabou brotando a ‘escritura’ também."

Na escola, Diogo escrevia contos. “Eles eram bem sucedidos com professores, família”. Com esse estímulo, seguiu o sonho. “Quando todo mundo que está a seu lado, em volta, começa ‘ahh, gostei muito’, ‘ele tem imaginação’, ‘muito bem’. Aí eu comecei a ver em mim algumas qualidades que podiam se transformar, ou me transformar, em um escritor.” Desde então, ele definiria o seu desafio na literatura.

– Eu gostava de fugir dos padrões pré-estabelecidos. Isso era muito entusiasmaste, porque me apresentava sempre um problema diferente. Comecei escrevendo continho como todo mundo. Aí você escreve um livro, escreve outro, e outro e outro e você pensa que nunca vai parar. E a minha sensação era essa: eu me via velhinho escrevendo romances. Aí, tudo mudou.

Sim, tudo mudou.

– Eu sempre tive grande prazer enquanto eu escrevia. Mas em uma certa altura eu percebi que eu não tinha o mesmo prazer de antes. Que eu corria o risco de repetir alguns achados, algumas descobertas que eu já tinha feito. Quando eu senti que eu tinha uma “voz literária”, e isso foi no meu quarto romance, que eu acho que realizou aquilo que eu queria fazer desde o comecinho, consegui fechar o círculo, eu senti que eu já tinha uma voz forte demais. Tendia a se repetir nos romances sucessivos. Eu comecei a escrever um novo romance, e eu tinha uma ótima idéia para ele, mas eu senti que estava me repetindo e fiquei preocupado. Sinceramente, eu não sou um escritor mecânico. Eu não vivia disso, então não tinha uma obrigação de fazer livro. Era um interesse intelectual. E quando o interesse intelectual e não te dá um retorno intelectual, você perde o tesão.

Junto com as dúvidas que surgiam no escritor, uma surpresa acertou-o: o nascimento do seu primeiro filho:

– Ao mesmo tempo, a minha vida particular sofreu uma transformação. Eu tive um filho. E eu percebi que filho é melhor do que livro. E eu dediquei muito tempo ao meu filho. Também, precisei ganhar dinheiro para sustentar uma criança, sobretudo uma criança que teve problemas no nascimento, o que custava caro. Precisei ganhar dinheiro, e livro não era dinheiro. Embora eles tenham um certo sucesso para padrões brasileiros, não eram uma obrigação. Eu não vivia deles.

Diogo sempre afirmou que a única coisa que ele sabe falar é sobre literatura. E é por respeito a ela que ele, temporariamente, parou de escrever.

– É possível que eu volte a escrever. Se voltar a curiosidade. Enquanto isso não acontecer, eu não escrevo. Escrever por escrever, eu não escrevo. Não se justifica. Acho um desrespeito com o que eu fiz no passado e com a minha maneira de ver literatura. Eu realmente gosto de literatura, por isso mesmo eu não faço automaticamente, não me permito seguir um padrão que eu tenha descoberto em algum momento. Aí não dá certo. Não tem graça.

– Enquanto isso – pergunto – pode-se afirmar: Diogo Mainardi – Profissão Pai?

– É a melhor profissão, concorda rindo. Eu jamais podia imaginar isso. Não tem nada mais gostoso. Mudou a minha vida. Mudou para melhor.

E se ele espera que seu filho leia seus livros? Mais interessante é perguntar isso para ele pessoalmente.

O Perigo Mora em Casa

Muitos especulam, “quem foi o mentor intelectual desse crime”? Lógico, o crime é Diogo. A culpa recai quase sempre no pai, Ênio Mainardi, polemista de longa data. Não podiam estar redondamente enganados. Apesar das suas excelentes colocações, como comparar o ranking de agências de publicidade a competição de “moleques que querem ver quem tem Piu-Piu maior”, não é ele. Mas está bem próximo. É uma mentora, e chama-se Júlia:

– Ele (Enio) não é um grande leitor. O estímulo da leitura veio da minha mãe. Meu pai é engraçado. Eu sempre disse para ele, “você foi um pai maravilhoso para mim porque me deu um modelo negativo”. Eu sempre tentei ser o contrário do que ele era. O que foi ótimo, sempre funcionou na minha vida ser o contrário do que era meu pai: falastrão, desbocado, grosso, mal-educado. E em muitas coisas, hoje em dia, nos entendemos muito bem. Sempre nos entendemos, mas ele era bom não na área intelectual, essa era a minha mãe. Meu pai era bom para brincar de briga. A gente fez boxe juntos, caratê juntos, ele me ensinou a atirar quando eu era muito criança – e Diogo solta uma boa risada. Ele era muito bom nessa área mais extrovertida.

“Eu devo dizer também que ele me ensinou a não ter medo de falar certas coisas, de me expor a respeito de assuntos sobre os quais eu poderia ter algum tipo de impedimento, de timidez. Ele sempre foi um homem corajoso. Nesse ponto, eu devo admitir, um exemplo positivo. Eu que sempre achei um modelo negativo… Tentei roubar dele algumas coisas. Foi um companheirão. Era um molequão. A gente sempre debochou dos lapsos de cultura dele. Eu e a minha mãe sempre fomos os esnobes da família. E ele foi um ótimo sparing de discussão. Porque ele é muito articulado verbalmente – muito mais do que eu. E tem uma capacidade retórica muito melhor do que a minha. Então, para discutir com ele sobre qualquer assunto, eu tinha que buscar temas, argumentos. Em casa sempre se falou muito, se falou demais.”

“Sei”, digo, emendando na seqüência: “Mas quando pagam, os dedinhos fervem…”

– Quando pagam – responde - eu exercito minha liberdade intelectual. É minha única virtude: eu penso com liberdade, em primeiro lugar, liberdade factual. Eu não tenho nenhum tipo de aliança, associação com nenhum tipo de grupo político, com nenhuma corporação, com nenhuma profissão. Não tenho vínculos de amizades de me empeçam de me mexer livremente. O grande legado da literatura é eu ter me acostumado a pensar com liberdade sobre as coisas. Eu sigo a lição do Flaubert: se você topar com um lugar comum, desconfia dele. Não é uma afetação minha. Eu sei pensar com liberdade sobre os assuntos.

Certa vez, Diogo diz considerar seu papel na imprensa, não o de um lutador, e sim o de um técnico. E o que esse técnico espera do seu time?

– Eu tento fazer bem o meu trabalho. Eu tento gritar a coisa certa na hora certa. Isso se referia ao hábito brasileiro de baixar a guarda em relação a tudo. E quando eu digo tudo, não é só política. A gente baixa a guarda em relação a qualquer idéia a nosso respeito. O meu trabalho é ficar mesmo enchendo a paciência. “Vamos lá! Toma cuidado! Levanta a guarda! Tente se ver como alguém que está sendo esmurrado”. Sempre foi a minha tentativa. Desconfiar da bondade alheia, desconfiar que as coisas não vêm todas para o bem. Que não necessariamente você vá tirar uma lição dos seus fracassos. Só isso. Eu só faço isso.

Então, quer dizer, que o técnico ainda não ganhou seu título? Ele continua.

– Não! Eu sou técnico de um time vagabundo. Quer dizer, a nossa nacionalidade está na série C, e nunca vamos ser promovidos. O que é pior ainda. Nunca vamos sair da terceira divisão.

Eu tento dar continuidade na entrevista, mas não consigo.

– E eu ainda sou um mau técnico também – interrompe. Faz parte da nossa propensão ao fracasso. Eu não acredito nos meus próprios ensinamentos nem no próprio time! Eu não sou um grande motivador. E o bom técnico é o motivador. Eu falo “levanta a guarda”, mas sei que a gente vai acabar levando paulada no fim. Eu tento fazer as coisas com deboche e ironia. A ironia nunca vence, sempre perde.

Nesse instante, sua esposa entra para perguntar se ele vai buscar o filho. Talvez, por uma fraqueza momentânea, Diogo revolve encarnar o Ênio:

– Olha aí a barrigona dela – e apontando para mim – ele nem viu que você estava grávida!

Minha cara vai ao chão de novo! “É que”, “mas que”, gaguejo. “É que eu estava nervoso, justifico, mal estava enxergando um palmo a minha frente”. Diogo ri, sua esposa também. Aproveito a descontração para perguntar: e o Brasil? Diogo responde, sem nenhuma restrição ou mágoa:

– A graça desse país, de pertencer a esse país, de ser brasileiro, de crescer aqui, de fazer parte da cultura brasileira, para mim, é essa liberdade que eu tenho, e era o que eu dizia na Itália, e achavam muita graça, mas é perfeitamente verdadeiro: este é um país em que a gente pode falar mal na gente. Era o único mérito que eu via no nosso país. A gente tem liberdade para destruir a nós mesmos e, pior, temos até razão em nos destruir. Então, é uma maravilha. Você se destrói e ainda tem razão! Dá esse tipo de prazer especulativo. E tento fazer isso nos livros. No fim do Contra o Brasil, quando eu digo que no máximo a gente pode ser o mínimo denominador comum dos defeitos da humanidade, é uma visão, um papel para o nosso país. E eu me incluo.

Escritores

A entrevista termina cinco minutos antes do “sino” do colégio. “Pena que se tira tão pouco dessas entrevistas”, diz Mainardi. “Se fosse para escrever, tinha tanta coisa”. Eu pego o roteiro e estendo para ele dizendo: “A vontade, facilite meu trabalho”. Ele levanta a mãos e diz “não, não, você sabe…”. Sim eu sei, mas fico a pensar se meus míseros dez reais, ultimamente o único recheio da minha carteira, seriam suficientes.

Antes de sairmos, ele ainda foi fiscalizar os novos vidros. Olha ali, olha acolá. “Ainda está ondulado, mas pelo menos agora não tem aquelas manchas, a gente pode ver a praia.” Eu e a sua esposa nos entreolhamos. Eu balanço negativamente a cabeça. Ela ri. Esse é o Diogo Mainardi. Tem sempre uma opinião sobre tudo… menos sobre o Olavo Bilac.

Evelyn Waugh: É um escritor que não poupou ninguém. Satirizou a própria sociedade inglesa na sua ânsia colonizadora, mas não poupou os próprios colonizados. Foi um escritor selvagem. Sarcástico, debochado. Debochou de todos, sem distinção. É a grande virtude dele, a graça dele.

José Saramago: É um escritor que se arrisca muito. Já fez muitas bobagens, como Jangada de Pedra, por acreditar demais na força da alegoria. Ele tem uns traços estilísticos muito irritantes. Mas é um escritor que se arrisca. Só fala bobagem – é impressionante como alguém pode falar tanta bobagem a respeito do mundo da vida. Mas é um escritor que não se acomoda. Tem uma coragem de tentar fazer uma fantasia kafiquiana quando não existe mais espaço para Kafka. Ele arrisca. Ele tem peito. E eu admiro isso em um escritor. É essa a primeira característica que admiro – a coragem de fazer alguma coisa que o bom-senso desaconselha.

Jorge Amado: Um lixo. Não vale a pena ler. Não é um escritor que vá ficar. Não é nem entretenimento mais. Podia ser na época em que ele escrevia. Não é nada.

Machado de Assis: O último Machado? Memórias Póstumas é um livro engraçadíssimo, melhor do que Dom Casmurro. Quincas Borba também é uma graça de livro. Eu rio, acho inteligente, bem sacado. E acho que ele dá melhor do que qualquer outro escritor a dimensão da nossa pequenez, do nosso provincianismo; de como a gente é besta, de como a gente faz tudo errado, de como nós somos pequenos, de como o nosso mundo é bem pequeno, de como a nossa sociedade é pequenininha. Eu acho a maior graça.

Olavo Bilac: Não é uma leitura que se possa fazer com espírito de descoberta. Esses autores que seguem, que fazem parte de uma escola de maneira clara e reconhecida? Você deve ler, é obrigado, para saber o que já se fez e o que a humanidade tentou com a língua, com o verso…, mas eu não tenho opinião sobre Olavo Bilac.

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