A feijoada que derrubou o governo - Joel Silveira

Um bom repórter cumpre o seu dever profissional. O grande é aquele que, mesmo diante das suas diferenças. Já os gênios, como Joel, além de tudo isso, faz algo ainda mais extraordinário

Foi numa segunda-feira. Cheguei em casa lá pelas dez, depois da provação que são as aulas na faculdade. Encontrei minha namorada (da época) com uma certa ansiedade no ar? Pensei comigo, “aí tem coisa”. “Tenho uma surpresa para você lá no quarto”, disse ela. Em cima da cama, esperava-me um pequeno embrulho. Leitor calejado já sabe quando ganha livro. Rasgo o papel e o volume em capa preta saltam aos olhos. Joel Silveira.

Só no outro dia, enclausurado no meu exílio (leia-se sala com ar-condicionado), é que dei a devida importância. Já conhecia o Joel, ao menos de nome, de fama. Porém, infelizmente, as obrigações matinais tomaram todo o meu tempo.

Findo o almoço, tomando o sagrado cafezinho ali na Constante Ramos, uma lembrança cruzou a minha mente maluca: “Bom, o Joel mora por aqui, em um apartamento do sétimo andar…” Mas e onde fica a bendita rua? Um pulo na sapataria da esquina para o um prezado amigo, detentor de os mapas imagináveis do Rio de Janeiro, resolver imediatamente meu problema.

Munido de orientação cartográfica, ousadia e cara-de-pau, envergo à direita na Nossa Senhora de Copacabana e parto rumo a Ipanema. Mas qual foi minha surpresa ao atingir a esquina da Nossa Senhora com a Francisco Sá. Pela rua, até onde falha a minha vista, ergueu-se uma colossal garganta de concreto.

Cabisbaixo, com o espírito arrefecido, comecei a vagar pela Francisco Sá. Diante da desilusão, do sonho destruído pela avidez da ganância construtiva das empreiteiras da década de setenta, nada restou a esse pobre rapaz. Mas uma idéia doentia me atingiu. Entrei no sebo mais próximo, encostei no balcão e, astuto, soltei: “Diga-me uma coisa, não é nessa rua que mora aquele jornalista, o Joel Silveira…”

ESTÁ NA MESA, GENTE

Meus planos não deram muito certo naquele dia. Voltei resignado para casa e abri “A Feijoada Que Derrubou o Governo”, coletânea de reportagens do jornalista Joel Silveira. Já que não localizei o ninho, ao menos tenho as picadas da “víbora”.

Não havia quem escapasse de seu bote. Getúlio Vargas bem que tentou, mas acabou com um arranhão. Foi personagem principal da história do país, mas na estória de Joel Silveira, foi o coadjuvante naquele que, quem sabe, talvez seja o melhor escrito artigo do jornalismo nacional: “Primeiro, único e desastrado encontro com Getúlio”.

Antônio Carlos, João Neves, Góis Monteiro, Hermes Lima, Jânio Quadros, entre outros. Os nomes mais famosos do Brasil acabaram, de uma forma ou de outra, rendidos diante do prestígio e do talento de Joel, expostos ao país não como personagens da história que se escrevia, mas como pessoas que, no fim, somos todos nós.

Excluindo Vargas, todos acabavam se abrindo para o jornalista, mesmo essas informações não sendo publicadas. É o caso do general Góis Monteiro, que durante a entrevista, reconstitui detalhadamente o fim da ditadura, mas depois, com bengala em punho, ordena a Joel: “Não, isto não é para publicar! Se você publicar, desminto tudo!”

Tentando entrevistar o presidente Antônio Carlos, Joel Silveira é driblado pelo antigo redator do Jornal do Comércio. Escreve: “Faço um ligeiro balanço, neste instante, e chego à conclusão de que respondi mais do que perguntei. Por causa disso, é possível que esta entrevista não tenha saído completa e definitiva. No entanto, ao contrário disso, o presidente Antônio Carlos ficou com um vasto material para escrever uma reportagem completa sobre a minha humilde pessoa”.

Tudo isso devidamente registrado no livro: as peculiaridades, essas singelezas de todos os homens, que por fim, as vezes determinam os rumos da nação. Agora, as melhores matérias, aquelas que tocam o leitor mais fundo, seja ele de que ideologia for, são as duas últimas: “Pode uma feijoada derrubar o governo? Pois foi isso que aconteceu” e “JK, 1976: no cerrado, a última meta”.

No artigo sobre Juscelino, Joel lembra a figura humana de JK. Depois de cassado, exilado, ele finalmente volta ao Brasil. Compra uma fazenda em Goiás e, empreendedor como é, sonha com sua lavoura, com sua plantação de café, com a pastagem recém plantada para seus bois e, em especial, sua pequena safra de café, prestes a dar a primeira colheita.

Talvez, a geração de hoje não entenda bem o que este homem representa. Acostumados a olhar a história com a frieza do distanciamento, dificilmente perceberão a profundidade, a sensibilidade nos textos, escritos sempre em momentos decisivos do país, naqueles onde a maioria calava-se ou somente opinava covardemente. Um bom repórter cumpre o seu dever profissional. O grande é aquele que, mesmo diante das suas diferenças. Já os gênios, como Joel, além de tudo isso, faz algo ainda mais extraordinário: atinge certeiro todos aqueles que o lêem, a despeito das suas opiniões políticas, ideológicas ou pessoais.

Nisso, Joel Silveira sempre foi muito feliz. Ou melhor, continua sendo. Ainda é!

PS: Acham que desisti? Voltei a Francisco Sá e consegui meu autógrafo. E descobri, no final, que ele não mora no 7º andar.

A feijoada que derrubou o governo - Joel Silveira

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