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O fim do julgamento de Johnny Depp e Amber Heard

A dinâmica dos abusos domésticos são complicadas e podem ter resultados graves. Mas eu pouco sei dessas coisas, muito menos de Johnny Depp e Amber Heard.

Quando eu crescer quero ser a Helen Beltrame-Linné, não ver o rosto de Johnny Depp por anos e não saber quem é Amber Heard - e que as pessoas achem isso maneiro. Embora viver de assistir Ingmar Bergman não seja a melhor forma de abordar o cinema é o que paga as contas dos jornais (mas não da sétima). Só assistir aos clássicos não combina com penteados moderninhos. É jeu de scène. Pensando bem, não vou crescer nem tentar ser maneiro.

Gente como a Helen é chata.

Johnny Depp ganhar a ação de difamação contra Heard deixou essas pessoas furiosas. Mesmo sem ter acompanhado o julgamento, sem ter analisado as provas, sem ter ouvido horas de testemunhos de ambos (tudo de ambos os lados), eles já julgaram que o caso é um show de horror e que ninguém ganhou nada com isso.

Agora todo mundo concorda que vai ser cem vezes mais difícil para uma mulher denunciar um rico poderoso depois dessa disputa judicial. Ou melhor, agora todo mundo concorda que vai ser cem vezes mais difícil para uma mulher denunciar sem provas concretas. Será? Eu tenho poucas certezas no mundo de hoje.

Lembrem que Amber não denunciou Depp criminalmente, ou seja, até hoje ele não foi processado e muito menos condenado por abuso doméstico ou agressão. Amber Heard também não.

E apenas um deles capitalizou com durante toda essa confusão: Amber Heard.

Helen Beltrame-Linné, Nina Lemos e a turma parecem não aceitar (assim como Amber) que homens também são vítimas de abusos. Nenhum deles dirão de forma categórica que abuso contra homens não existem. Então o que precisa para acreditarmos nas violências?

A advogada de Amber sabe o que homens precisam para provar uma violência, agora está chateada porque as mulheres precisarão provar isso ou serão processadas por difamação:

“É um retrocesso, um retrocesso significativo […] A menos que você pegue seu celular e filme seu cônjuge ou parceiro batendo em você, não acreditarão em você”, opinou a advogada de Amber Heard.

O que eu não sei é que tipo de provas a turma quer que homens apresentem para esses abusos domésticos. Embora não falem com palavras, a dinâmica parece ser que apenas o testemunho das mulheres deve pesar mais do que o testemunho dos homens. Qual é a linha de raciocínio que resulta em “todos perdem” com o resultado do julgamento de Depp vs Heard?

Ouve-se muito “acreditem em todas as mulheres”. Ou seja, se a mulher diz que aconteceu, aconteceu. Se o homem diz que aconteceu, bem, aí é preciso seguir o devido processo legal? Se vencer, o homem só obteve a vitória por causa do patriarcado e do preconceito estrutural (sim, essa será a evolução daquela teoria “crítica”). E que a reclamação da violência feminina contra homens é apenas histeria?

O termo histérico, aplicado a um indivíduo, pode significar que eles são emocionais, irracionalmente perturbados ou frenéticos.  A histeria não existe mais como diagnóstico médico na cultura ocidental. Entretanto, a maioria das reclamações contra a vitória de Johnny Depp o caracterizam como uma pessoa emocional, irracionalmente perturbado, frenético e abusivo.

Volto a questionar, por que Helen Beltrame-Linné, Nina Lemos e a turma parecem não aceitar (assim como Amber) que Depp foi vítima de abuso? E que o abuso feminino pode ser pior do que o masculino? E por que falar sobre isso seria vergonhoso? Com quem essas pessoas andam?

A dinâmica dos abusos domésticos são complicadas e podem ter resultados graves. O certo seria denunciar, separar-se e processar o agressor- seja o agressor homem ou mulher.

Entretanto, o certo nunca é a moda do momento.

Já notaram que apesar de toda essa confusão um personagem ainda segue com sua vida como se nada tivesse acontecido? Sim, o agressor é a única pessoa nessa história que continua apesar de tudo. Não importa o quão violento ele foi, não importa o quão denunciado ele foi, o agressor sempre achará um novo amor para chamar de seu.

E esse novo amor, ao menos da forma que percebo, tem grandes chances de se tornar uma vítima fresquinha para os velhos discursos da mídia - isso se tiver sorte, porque é mais provável que seja uma daquelas anônimas que não servem para uma chamada de jornal.

Ninguém me procura para conselhos - ou muito menos para escrever em qualquer lugar. Eu ainda teimo em dar conselhos certos e de forma sincera. Estar apaixonado não é desculpa para agredir ou aceitar ser agredido. O certo seria denunciar, separar-se e processar o agressor- seja o agressor homem ou mulher. Eu preciso ser mais sensível, eles dizem.

Mas eu pouco sei dessas coisas. Meu círculo não é composto por vítimas ou agressores.  Hoje eu tenho amigos chatos, que se casaram, trabalham, tentam criar seus filhos com dedicação, amor e carinho - enfim, cuidam da sua própria vida da melhor forma que podem. Assim como eu.

Pelo visto, eu estou fazendo tudo errado. Eu quero ser a Helen Beltrame-Linné quando crescer. Ainda bem que não terei tempo hábil para isso.

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