A formação de uma terceira via para 2022

Será possível mesmo achar uma terceira via para mudar o Brasil para a melhor?

A terceira via é fundamental para a democracia brasileira? Eu nasci em 1980. Deve ser por isso que ouvi tantas histórias sobre Tancredo Neves enquanto crescia. E desde o dia do meu nascimento até o final dos anos 90 ouvi que “tudo seria diferente se Tancredo não tivesse morrido." E depois do Plano Cruzado, Plano Cruzado II, Plano verão e a eleição e consequente impeachment do Collor, desenvolvi a seguinte tese:

Tancredo ou Sarney, tanto faz, porque tudo seria exatamente a mesma coisa.

Minha opinião nunca foi popular, mas acredito ser verdade. Morto ou vivo, Tancredo Neves não poderia fazer muita coisa diferente do que Sarney. Agora, com a cena política dominada por “esquerdas” e “direitas”, todo mundo está em busca da lendária Terceira Via - nosso El Dorado tupiniquim.

Isso não vai dar certo…

Normalizamos a catástrofe

Fazemos política como torcemos no futebol. Se assistimos o jogo na casa dos amigos, rimos, choramos, gritamos e xingamos. Se assistimos o jogo em um estádio de futebol, somos inimigos mortais porque ali estamos organizados e fazemos parte da massa.

Na política nos comportamos da mesma forma. Na intimidade, rimos, choramos, gritamos e xingamos a política e os políticos. Basta começar as eleições, somos inimigos mortais. Portanto, todo militante precisa tomar as precauções necessárias para voltar para casa vivo (ou ao menos ainda empregado).

Matar o torcedor do time adversário na casa dos amigos não é recomendável. Já no estádio, todo torcedor precisa tomar as precauções necessárias para voltar para casa vivo.

Políticos e respectivos assessores conversam alegremente nos corredores do congresso, na sala do cafezinho, nas reuniões (ou festas) nas casas dos colegas parlamentares. Quanta diferença do comportamento público deles, em entrevistas e posts nas mídias sociais. Por um segundo temos a esperança de que eles eles se importam com algo mais além do resultado do jogo e dos contratos assinados.

Políticos e jogadores de futebol agem do mesmo modo: o mais importante é a carreira - e apenas ela.

Amor a camisa nunca impediu os jogadores de futebol assinarem contratos melhores com outros times. Ser contra a mais-valia ou a favor do livre-mercado nunca impede políticos de fazer política.

Terceira via: we don’t need roads

Em jogo de futebol não existe terceiro time, e nem na política brasileira. Discutir a terceira via dentro das regras políticas atuais é desperdiçar tempo e intelecto. Desde quando Luciano Huck seria a terceira via pro Brasil? Silvio Santos já foi candidato a presidente (por uma semana). Nenhum dos dois trocaria a televisão pelo Planalto.

Outra falácia, achar um candidato que atraia apoio político e votos. Desde quando isso é requisito para se eleger Presidente do Brasil? Desde quando Color foi um “candidato viável”? Com a máquina de governo, você pode literalmente colocar um poste como candidato e ganhar, como provou a eleição de Dilma Rousseff. Ninguém acreditaria que o macaco Tião seria o terceiro colocado para a prefeitura do Rio de Janeiro. Ninguém achou que Jair Bolsonaro seria presidente.

A única forma de se conseguir uma terceira via em uma eleição é escolher como candidato um brasileiro honesto e bem sucedido, articulado e educado, carismático, que tenha como objetivo de vida passar 4 anos como Presidente do Brasil, fazer o necessário para ajudar o país e, logo em seguida, afastar-se da vida pública. O resto, um bom marketing eleitoral resolve (se funcionou com o Lula, funciona com qualquer um).

O mais próximo disso até hoje foi Itamar Franco. E ele não possuía nenhuma dessas qualidades.

Entretanto, discutir uma terceira via genuína não traz benefício para ninguém que é profissional em “vida pública brasileira”. Nenhum político, nenhum partido, nenhuma empresa com interesses em participar de licitações públicas ou regulada pelo governo, nenhum político profissional, nenhum sindicato, nem o cara do cafezinho, ninguém iria aderir abertamente a um projeto como esse.

É como pedir para o Neymar parar de fazer bobagem e virar um cidadão exemplar - é mais fácil ele se tornar Embaixador da Boa Vontade da ONU do que dar o exemplo durante uma pandemia global.

Poderiam fazer por baixo dos panos, mas nem um milhão de mortos fará a elite tabajara deixar de ser a nossa elite brasileira. Esqueça a terceira via.

Ao vencedor, as batatas!

O Brasil será sempre Brasil. Portanto, separem mais de suas batatas para entregar ao próximo vencedor (porque os de hoje já separaram e reservaram as partes deles). Nossas “esquerdas” e “direitas” são apenas jogo de cena, e tudo continuará a ser o que é hoje.

Dizem que não se pode poder as esperanças. Eu digo o contrário: Brasileiros, percam a esperança! Desesperem-se! Aceitem que cada pessoa nesse país está sozinha, e ninguém virá lhes resgatar. Absolutamente ninguém! Repitam comigo e com Machado de Assis:

“Ao vencedor, as batatas!!!”

Não se acanhem. Desistam de seus políticos de estimação. Ignorem as elites brasileiras, não as convidem para sua casa, cobrem o triplo ao invés de fazerem favores hoje para essa gente na esperança de ter duvidosas facilidades amanhã. Não seja convidado para aquela festa pobre que eles armaram para te convencer.

O jeitinho brasileiro é apenas um outro nome para corrupção.

Ao perder todas as esperanças, o brasileiro também perderá todas as suas ilusões. Assim, começará a perceber as coisas como elas realmente são. Talvez, ai, algo mude no país. Também não tenho certeza de que será para a melhor, e mesmo que seja para a pior, não será muito diferente do caminho que trilhamos hoje como nação.

Ao menos o brasileiro poderá morrer com a dignidade que lhe é negada hoje porque o futuro do Brasil nunca esteve em nossas mãos. E isso é muito mais do que “esquerdas” e “direitas” podem nos prometer hoje.

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