Freeguy (2021)

Ryan Reynolds está tão bem na pele de Guy que eu quase me esqueço de que o script é uma verdadeira porcaria.

Ryan Reynolds conseguiu sucesso no cinema. Quer dizer, o Deadpool virou uma grande estrela de cinema e Ryan ganhou dinheiro e comprou uma empresa de celular, a Mint Mobile. De qualquer forma, nada muda o fato de Freeguy já ser um sucesso de crítica e de público, assim como os comerciais da Mint Mobile - eu acho.

Ryan Reynolds está tão bem na pele de Guy, um personagem-não-jogável de um videogame que eu quase me esqueço de que o script é uma verdadeira porcaria.

Alerta de spolier: claro que vou entregar muita coisa do filme e isso pode acabar com a sua experiência se você ainda não assistiu. Recomendo ler tudo até o fim mesmo assim.

Eis o resumo do filme: Guy (Ryan Reynolds) é um personagem-não-jogável que vive dentro de um videogame, o jogo Free City. Sua rotina consiste em acordar, ir para o banco trabalhar, ser assaltado lá e pronto - tudo se repete.

Um dia ele vê andando pela rua o amor da sua vida, Millie/Molotovgirl (atriz-genérica-1), e decide ir atrás dela. Essa decisão desencadeia uma série de acontecimentos no mundo real. Portanto, o vilão, Antwan (ator-genérico-1), dono da empresa de videogame, precisa destruir Guy para continuar ganhando dinheiro. Então Guy, Millie/Molotovgirl e o verdadeiro par romântico Keys (ator-genérico-2) se unem para salvar Free City e tudo dá certo no fim.

Simples, direto e clichê, o enredo é aquele encadeamento de ações previsíveis. Os mocinhos querem desmascarar o vilão, um cara descolado aparece para mudar a situação, cria-se o triângulo amoroso e tudo termina bem no final.

Porém, nosso zeitgeist fez com que o filme mostrasse uma realidade que faria Baudrillard chorar de tanto rir: o mundo do videogame é muito mais real do que o mundo real; o mundo real é caricatura do videogame.

Grant theft auto

Hollywood não é uma indústria reconhecida pela sua sofisticação e inteligência. Aliás, tudo menos isso. Assim como a televisão brasileira, executivos de estúdios de cinema se preocupam com lucro, e tudo bem com isso. E para ter lucro hoje um filme precisa:

  • ou ser de uma franquia já estabelecida;

  • ou ser de uma franquia já estabelecida em outro meio.

    Novos filmes não são originais, apenas parecem originais. Freeguy busca “inspiração” não em personagens já consolidados, mas em outra fonte inesgotável de lucro hoje em dia: Propriedade Intelectual.

Freeguy é uma cópia dos jogos on-line, especialmente Grant theft auto, a origem de todos eles. Os elementos dos jogos on-line são os mesmos em qualquer um deles. A partir daí, constrói uma história familiar para os espectadores. E apresentar isso em um filme nunca foi feito antes?

Claro que sim. Os filmes LEGO® são o maior sucesso do gênero. Deveriam criar uma nova categoria no Oscar® para esses filmes. Mas nenhum deles escalou o Ryan Reynolds no papel principal.

A realidade ainda é mais estranha que a ficção

Hoje o conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural do mundo real é caricatura das aspirações das gerações passadas. Seja para o bem ou para o mal, o mundo de hoje é apenas uma caricatura, seja ela boa ou ruim.

O vilão do filme, Antwan, parece um maluco na forma de se vestir, de se comportar e de viver. Entretanto, ele é mesmo mais excêntrico do que os donos do Twitter, Google ou Facebook?

A realidade me obriga a dizer que não.

Normalidade, ou algo próximo ao bom-senso, se tornou assunto da ficção. E isso é resultado dos pais dessa geração atual. Seja lá o que eles estavam fazendo (provavelmente trabalhando para comprar mais), com certeza não notaram que a internet estava educando seus filhos.

Nunca confie na internet, no duro!

Voltemos, então, ao assunto mais importante em qualquer enredo, o triângulo amoroso.

Guy se apaixona por Millie/Molotovgirl. E, claro, como ele é um programa de computador, seja como for, uma inteligência artificial viva ou não, ele foi criado a imagem e semelhança de seu programador, Keys, o amigo platônico da heroína. O que é uma grande ironia, já que Reynolds fez alguns filmes românticos no começo da carreira, por isso o filme pode até ser uma homenagem debochada ao gênero.

Se assim for, o discurso de despedida dele no final do filme é ainda mais engraçado porque subverte o desfecho desses fimes (a saber, o discurso é o personagem Guy desenhando para a personagem Millie/Molotovgirl entender que o verdadeiro amor da vida dela é o seu grande amigo Keys - quem imaginaria isso, não é?). Depois disso Guy vive feliz e tranquilo no seu mundo artificial, não sentido nem um pouco a falta do então amor da sua vida.

Na realidade, Guy tirou um fardo de suas costas.

Só de pensar que a juventude atual precisa que desenhem para entender um assunto desses me causa depressão. É muito mais educativo para um garoto ser pisoteado pelo amor da vida dele até ele compreender qual é o seu verdadeiro papel nesse romance. Isso coloca as coisas em perspectiva.

Seja como for, o carisma, a doçura e a comédia de Ryan Reynolds deixa tudo isso para teoristas conspiratórios como esse que vos fala.

O mundo real é dos incompetentes

Fiquei muito curioso com o comportamento dos personagens no filme. Como já é de se esperar, há aquela critica aos jogadores, de que eles na vida real não são absolutamente nada parecidos com seus avatares. Isso já virou um clichê.

Tudo poderia ser resolvido bem mais rápido.

Uma das tramas é o fato de Antwan ter roubado o programa de Millie e Keys para criar Free City. Quer dizer, não foi bem roubar, já que Antwan comprou a propriedade intelectual da dupla, ele só não deu crédito a eles em Free City. Então todo mundo sai a procura desse código de programação que está escondido em Free City.

Só que Keys trabalha para Antwan. Keys é um gênio. Keys está dentro da empresa. Keys tem acesso ao programa e ao seu código-fonte. Basta Keys dar um search no código-fonte e o problema está resolvido.

Durante o clímax da trama, Keys precisa ajudar Guy a chegar ao seu MacGuffin , e para isso ele se esconde atrás de uma coluna enquanto os malvados procuram inutilmente por ele. É cena inverossímil, pensei, mas totalmente alinhada a atual capacidade das pessoas.

Enfim, um filme para os dias de hoje

Falei no início, o enredo do filme é uma porcaria. Entretanto, no mundo de hoje, a execução é mais importante. Uma história brilhante e estruturada, com reviravoltas que nos fazem questionar os alicerces das nossas crenças e nos inspira a mudar para uma versão valiosa de nós mesmos? Ou seja, um filme original?

Por favor, não exija demais, Lefebvre.

Entretenimento, escapar da realidade, ficar umas horas longe de tudo, isso sempre existiu. Eu mesmo adoro o Stephen King. Entretanto, se me falassem nos anos 90 que no futuro as pessoas se inspirariam em e desejariam ser influenciadores digitais sem ter ou ser nada mais do que apenas isso… eu diria que essa idéia seria maluca.

O filme até pode ser uma porcaria, mas Ryan Reynolds é muito engraçado. Ao menos por enquanto. A não ser que Ryan leve seu sarcasmo natural a novos níveis. Mas aí, então, ele estaria sendo ainda maior original do que é hoje. E sabemos que Hollywood odeia originalidades - assim como odeia impostos.

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