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Gabriel Marcel e o existencialismo, por Urbano Zilles

Monsenhor Urbano Zilles discute a obra de Gabriel Marcel, um filósofo desconhecido na cultura brasileira

Os seres vivos nascem, crescem e morrem. A existência é prática. Já os seres humanos são especialistas em enriquecer a experiência de viver. As pessoas conseguem isso através do pensamento. Somente a reflexão consegue valorizar atos banais como nascer, crescer e morrer: atividades realizadas por qualquer ser vivo nesse planeta. Todo avanço da humanidade se deve à nossa capacidade de pensar e buscar o reconhecimento por fazê-lo.

A filosofia é a codificação de nossa reflexão. E dentro dela existe uma turma que adora analisar a existência. No século XX essa tradição foi rebatizada de existencialismo e popularizada por Sartre, Nietzsche, entre outros. Você pode filosofar o quanto quiser sobre as origens da análise da existência e seu desenvolvimento. Mas assim como na música, o gosto musical moderno foi pavimentado por Beethoven, Mozart, Wagner e Brahms, só que não é bem isso que ouvimos no rádio. Quando tratamos de existencialistas, o “bloco do eu sozinho” comanda o imaginário até nem tão popular.

Enquanto eu me aventurava pelo absurdo de existir, a eterna luta do indivíduo e a sociedade, um nome sempre aparecia nos textos existencialistas, citado de forma indireta, relegado às notas de rodapé, respeitosamente desmerecido até nas mais importantes propagandas socialistas de Sartre.

O nome é Gabriel Marcel.

Quem diabos é Gabriel Marcel e por que ele é tão importante assim?

Gabriel Marcel

Não entre sem ser convidado

A juventude nos presenteia com a ousadia e o destemor. Lemos muito e criamos certezas no mesmo ritmo. Eu preciso ser convidado para entrar na sua casa. Ensaios são o equivalente aos convites que me permitem entrar na casa alheia. A Orgia Perpétua, de Mario Vargas Llosa, me permitiu entrar na casa de Flaubert. Antigamente nós não víamos vídeos no Youtube para descobrir novos assuntos, autores ou idéias.

Nós líamos ensaios. Eu tenho dezenas de coletâneas de ensaios. É a melhor forma de se inteirar sobre um assunto, rápido.

Até hoje não tinha sido apresentado de forma apropriada a Gabriel Marcel. Mesmo que o conceito central de sua obra seja curioso (mistério/problema, ter/ser, eu/tu), eu preciso de um convite. Gabriel Marcel sempre esteve na fronteira do pensamento de autores que me formaram, como Camus e Baudrillard. Uma fronteira envolta em mistério, onde algo além daquilo apreendido por eles paira, sussurrando uma promessa de aventura e descoberta. Principalmente Camus, cuja obra foi interrompida por uma árvore, que nasceu e cresceu e já morreu, provavelmente.

Gabriel Marcel ficou longe da minha atenção também pelos meus próprios preconceitos sobre filosofias religiosas, que é plural e universal: começa na minha própria igreja católica e se estende até buda e qualquer “filosofia oriental”. Meu próprio nome é uma homenagem a outro Marcel, o Lefebvre, que fez oposição ao Concílio Vaticano II. Sim, há peso em nossas heranças. Tudo isso torna essa situação singular: foi convidado para o existencialismo cristão de Gabriel Marcel através do Monsenhor Urbano Zilles que escreveu um ensaio franco, honesto e objetivo.

Tudo aquilo que meu preconceito me impediu de descobrir antes.

Gabriel Marcel e o existencialismo

Bons ensaios seguem uma certa regra. Primeiro o autor se apresenta e expõe sua reflexão. Depois faz um breve resumo da sua jornada com o assunto proposto, o motivo da crítica e como ele vai abordá-lo. Depois (ou seja, agora), começa a falar.

Os melhores ensaios não são obras aborrecidas guiadas pelas normas da ABNT (ABNT, 2009). Nem são reserva de mercado de acadêmicos com várias iniciais. Mesmo que o mercado literário discorde, ter um Ph.D. não é garantia de um texto justo com qualidade. É bom pro marketing e nem sempre pro leitor.

Confiar no autor é essencial para aproveitar um ensaio. Confio na generosidade de Zilles e, portanto, me espanto com a generosidade que Gabriel Marcel também entrega nos seus trabalhos.

O ponto de partida para uma verdadeira filosofia de liberdade é, pois, o conhecimento claro de uma situação, que não é apenas a minha, mas faz a mim ser eu mesmo. Trata-se de participar do ser, que funda minha realidade como sujeito. Não somos só para nós mesmos. Participamos duma realidade transcendente. E, por essa reflexão, chego a concluir que não sou propriamente, livre, que a liberdade não é um atributo, mas que devo ser livre, que minha liberdade deve ser conquistada sempre. (Gabriel Marcel e o existencialismo, p. 94)

A transcendência é um mistério, impossível de apreender na totalidade. O mistério não pode ser codificado, analisado e replicado. O mistério precisa ser transcendido. Gabriel Marcel, apresentado por Urbano Zilles, não é um exercício de retórica ou uma brincadeira de lógica. Mostra um caminho para sairmos do abuso do racionalismo e suas limitantes, como o empirismo e a aplicabilidade – duas conseqüências da falta de reflexão que tendem a impedir o livre pensamento.

O século XXI está preso na armadilha do presente, do atual, do agora. O pensamento, a reflexão e a transcendência existem além do tempo e do espaço. São eles que garantem não só o futuro da humanidade, mas a capacidade de existência. Sem a perspectiva do futuro, e o mistério que nele reside, nenhum ser consegue existir. Assim como o ser, mesmo existindo, só encontra a transcendência em seu propósito quando não está só. É muita informação para um ensaio tão curso, Monsenhor Urbano Zilles.

Conclusão do ensaio

Ler um bom ensaio é uma experiência enriquecedora, ainda mais hoje em dia. Escrever sobre ele foi difícil. Como conseqüência dos dias em que vivo, aceito sem querer aceitar que somente um especialista em Gabriel Marcel poderia elogiar um ensaio sobre Gabriel Marcel. Deveria para isso apontar no texto de Urbano Zilles as passagens em que ele sintetizou de forma magistral o conceito apontado na obra original (e dar tantos exemplos disso quanto possível).

Soa tolo elogiar a obra me baseando somente na minha própria experiência. Ou dizer que Gabriel Marcel valoriza aspectos de Camus que, para mim, estão incompletos e inexplorados. Por exemplo, a transcendência encontrada por Sísifo. O valor da revolta sobre a revolução. O propósito do Dr. Rieux. O absurdo da existência, que não conseguimos apreender, e se aproxima tanto do mistério que nos obriga à transcendência.

Ou o oxímoro de ter vergonha de pensar o existencialismo, cristão ou não, a partir da minha própria existência.

Gabriel Marcel, por causa de Urbano Zilles, se mostra interessante demais para ser ignorado. O que me faz ter ainda mais raiva de mim mesmo pelo tempo perdido com Sartre.

Se o texto fez sentido para você, e ficou curioso, Gabriel Marcel e o existencialismo é uma leitura deliciosa.

Agora, se você não entendeu nada do que está escrito, transcenda.

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