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O que é Fan-baiting

Os fanáticos sempre atacaram a diversidade na tela, mas em um clima político altamente polarizado, casos de assédio em ganharam cobertura desproporcionalmente massiva da mídia.

Quando eu era mais jovem (e isso já faz muito tempo) acreditávamos que a cultura mudaria para melhor. Era um sentimento honesto. Principalmente no cinema, o fim dos anos noventa e os primeiros anos do novo milênio nos proporcionou vários projetos experimentais.

Conceitos pseudo-filosóficos como Matrix, filmes de super-heróis, ficção científica alternativa, dramas independentes, tinha um filme para qualquer gosto - e com qualidades diferentes. Hoje a cultura em geral é pautada pelos canceladores e lacradores. Nenhum dos dois conseguem produzir material de qualidade.

Então criou-se uma cultura de “fan-bating”, isto é, enganar fãs para lucrar com material ruim - já que os executivos e líderes de hoje tiveram um intenso treinamento em covardia profissional.

Já este que vos escreve está apenas cansado e com muita preguiça de pensar (de novo) nesse assunto.

Por isso vou apenas traduzir as opiniões do Dr. Thala Siren1 e temperar com os comentários do norueguês Andre Einherjar.

Fan-baiting” é uma forma de marketing usada por produtores, estúdios de cinema e atores, com a intenção de estimular controvérsias artificiais, angariar publicidade e negar as críticas negativas de uma nova e, muitas vezes, aguardada produção2.

A isca para fãs surgiu como uma estratégia de marketing em 2016/173, depois que fãs de franquias queridas como Caça-Fantasmas e Star Wars se opuseram ao que eles entenderam como decisões criativas ruins, roteiros desleixados e alterações baratas para tramas e personagens por causa do valor do choque.

No mesmo momento dessas críticas, havia um pequeno grupo de comentaristas preconceituosos, mas vociferantes, que se opunham à inclusão de atores negros e atrizes em papéis tradicionalmente ocupados por atores brancos. Alguns desses indivíduos começaram a assediar publicamente os atores4.

Os fanáticos sempre atacaram a diversidade na tela, mas em um clima político altamente polarizado, casos de assédio em ganharam uma cobertura desproporcionalmente massiva da mídia, fornecendo aos estúdios de cinema publicidade gratuita e uma nova defesa contra os críticos de verdade5.

Os estúdios aproveitaram a oportunidade para desacreditar críticas à má escrita e à má atuação, insinuando que elas, também, foram motivadas pela intolerância. O que costumávamos aceitar como crítica padrão foram cada vez mais descartadas como sendo parte da crítica ignorante de “fãs tóxicos”6.

Logo, tornou-se prática padrão antes de lançamentos emitir anúncios detalhando a diversidade nas escolhas de elenco, junto com declarações preventivas de solidariedade com o elenco, contando agora com comentários depreciativos e assediadores que eles iriam receber7.

Atrizes ou atores que fazem parte do BIPOC8 tornaram-se adereços & escudos para a preguiça corporativa e oportunismo covardes. Os estúdios economizam dinheiro de duas formas, evitando os escritores veteranos caros9, como também despejando publicidade para jornalistas e mídias sociais sobre a controvérsia artificial.

“Fan-baiting” funciona. Traz um novo público simpático ao endosso de tomar uma posição pública contra o preconceito ao invés de qualquer interesse real na arte. “Fan-baiting” também permite que os estúdios cultivem o ceticismo do público sobre a legitimidade das críticas ruins10.

Fan-baiting também obriga os críticos diminuir suas críticas, por medo de serem associados ao “fãs tóxicos”, perdendo sua autoridade profissional, resultando em discrepâncias entre as avaliações dos críticos e do público11.

A verdadeira natureza da “isca para fãs” nunca é tão visível como quando um roteiro é bem elaborado e as críticas do público são, portanto, positivas, expondo os anúncios, declarações de solidariedade e aliciamento do ceticismo pelo que realmente são: táticas cínicas de marketing corporativo12.

Dito de outra forma, as corporações de mídia encontraram uma maneira de monetizar o racismo que eles armaram para seus próprios atores.

Photo by Vadim Bogulov


  1. Esse é um pseudônimo horrível e divertido simultaneamente. ↩︎

  2. É fácil usar “Os Anéis do Poder” como exemplo de um trabalho mal-executado, que contava com a reação negativa dos fãs para gerar publicidade para o resto do público. Eu mesmo já falei sobre isso aqui. Hoje é o remake de “A Pequena Sereia” aposta nessa estratégia de marketing, contando com toda reação “negativa” (seja ela crítica, depreciativa ou preconceituosa) para gerar assunto e lucro para um filme que, aparentemente, é apenas mal-feito. ↩︎

  3. Embora o filme de Paul Feig tenha feito o alarido com o fan-baiting, o paciente-zero do fan-baiting foi Quarteto Fantástico em 2015. A FOX foi obrigada a produzir esse filme para não perder os direitos dos personagens para a Disney. Eles atrasaram tanto a produção que sobrou apenas o diretor Josh Frank para fazer o filme, um cara que não tinha absolutamente nada no currículo que provasse, nem remotamente, a sua capacidade de liderar um projeto como esse. Ele já admitiu que escalou atores que não tinham nada a ver com os papéis apenas para irritar os fãs e parecer um gênio. Foi a tempestade perfeita para produzir um filme horrível. Contudo, nem a FOX e nem seu departamento de marketing podiam admitir o erro, então concentraram a campanha de marketing em um culpar um suposto “preconceito” contra o ator Michael B. Jordan estar no papel do Tocha Humana pelo fracasso de crítica e de público do que admitir que o filme era lixo. ↩︎

  4. Qualquer um que acredite que tom de pele, sexo, orientação sexual ou posição de astros (não importa para qual lado ele tele tenda, esquerda, direita, em cima ou embaixo) definem o caráter e valor de uma pessoa é apenas um otário, ou uma otária, ou otarix (este último não é um personagem do René Goscinny e Albert Uderzo). ↩︎

  5. Não que críticos de cinema famosos possuam qualquer semblante de coragem. A maioria se calou diante das ameaças de serem acusados de preconceito sem qualquer fundamento. Muitos deles dependem de estar nas graças dos estúdios para poderem escrever sobre filmes (falando bem, é claro) e o desenvolvimento do fan-bating criou apenas mais uma coleira para essa turma de comentaristas adestrados. ↩︎

  6. Ainda mais amedrontador do que não serem convidados para a premieres, críticos temem análises de suas qualidades extrínsecas, isto é, eles não querem ser chamados de feios pelos seus amigos. Assim fica fácil ignorar o roteiro, a atuação, as escolhas criativas. Difícil mesmo é ser chamado taxado de tóxico no próprio círculo de amizades e perder o lugar na mesa dos descolados. Os fãs já desistiram da busca pelas qualidades intrínsecas desses críticos há décadas. É apenas uma aventura impossível. ↩︎

  7. Diante da quantidade de opiniões que um filme recebe do público, por mais nojentas e asquerosas que sejam comentários preconceituosos, estes são minoria. Deveriam ser tratados como tal, respondidos com a devida severidade e pronto. Entretanto eles preferem criar uma atmosfera artificial, tornando toda crítica em manifestação de preconceito, só porque os realizadores dos filmes ficam tristes e fragilizados com opiniões contrárias (aliás, parece que ele não aprenderam nem a fazer o seu trabalho). ↩︎

  8. BIPOC é um acrônimo que significa Black, Indigenous, People of Color. ↩︎

  9. O público já percebeu a estratégia, principalmente na falta de preparo e capacidade das equipes criativas - principalmente as responsáveis por grandes franquias. As pessoas ignoram os filmes quando o marketing dele é baseado em reações imaginárias de fãs tóxicos de mentira. Um fã quer apenas um roteiro bem escrito e um filme com bons atores e diretores. A controvérsia artificial hoje age como um repelente de dinheiro. Ninguém está disposto a gastar para ver um filme chato de duas horas que, além de ser ruim, vai causar toda uma confusão se você não gostar. ↩︎

  10. Se a cultura woke ganhou algumas batalhas no Twitter (quem se importa), ao mesmo tempo causou prejuízo financeiro para os estúdios de cinema que os bancaram (os acionistas se importam). Boas críticas ainda existem, apenas se perderam durante essa bagunça causada pelas crianças mimadas de Hollywood.Aliás, uma boa crítica vence diante do mais vociferante SJW, o problema é a cultura woke trapaceou com sua cultura de cancelamento. Agora, desmascarados, os militantes ainda tentam uma última cartada com a censura pura e simples. Eles realmente não entendem como a internet funciona. Se no início um bando de boomers conseguiam navegar sem a ajuda do Google, pode ter certeza que a garotada de hoje vai conseguir se virar além do Twitter e do TikTok. ↩︎

  11. Por exemplo, Deadpool se tornou um fenômeno cultural desde que Ryan Reynolds produziu um teaser do próprio bolso. Em 2022 ele lançou um vídeo onde Hugh Jackman finalmente concorda em ser o Wolverine no filme do Deadpool. O filme estreiará em 2024, mas se você começar a vender ingressos hoje, eles vão se esgotar em minutos. Entretanto, os críticos profissionais já torcem o nariz para Deadpool. ↩︎

  12. Ainda que produtores e executivos sejam medrosos para apostar em novos talentos, criatividade é como um vulcão dormente: um dia ele explode e entra em erupção. Mesmo que minha geração desista, sempre aparecerá uma garotada mais criativa, preparada e ingênua o suficiente para criar boa arte. A vida dá um jeito, sempre. ↩︎

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