O que é ser de Campo Grande, Mato Grosso do Sul

Ainda acho melhor chamar alguém que goste de Campo Grande para escrever sobre Campo Grande.

Acordo hoje e me deparo com esse texto na página principal do UOL. Rodrigo Teixeira vaga pela prosa tentando mostrar que é ser do Centro-Oeste, “a terra do pôr do sol mais mágico do Brasil”. Isso lembrou-me imediatamente de uma velha piada de Campo Grande:

Ser campo-grandense é… ficar puto da vida se alguém de fora conhece alguém em Campo Grande que você não conhece.

Então a pergunta incômoda começou a me perseguir, “Quem é Rodrigo Teixeira? Por que eu não sei quem ele é? Por que diabos ele escreveu essa matéria para o UOL?"

Bastou uma mensagem no Zap para um velho amigo e eu lembrei porque eu esqueci:

“Ele é um cantor e jornalista aqui de Campo Grande, tá direto com o Espíndola e esses caras ai…”

“Acabei de lembrar!” eu pensei enquanto compreendia o que aconteceu. Treinei meu cérebro para apagar qualquer lembrança ou menção à turma do papai-noel do Pantanal. Minha reprogramação neuro-linguística foi tão boa que, em qualquer show que estivesse, bastava um deles subir ao palco para o perfeito silêncio absoluto acontecer. Durava de 5 a 20 minutos, a depender do Espíndola em apresentação. Funciona mesmo depois de 25 anos.

Entretanto, até meu amigo responder minha pergunta, procurei descobrir quem era o Rodrigo e por que ele escreveu esse texto específico pro UOL? Descobri dois fatos marcantes na carreira de Rodrigo Teixeira:

  • O cara se mudou em 1979 para Campo Grande e só viu a primeira onça-pintada em 2020.
  • O cara se mudou em 1979 para Campo Grande e só descobriu em 2006 que CGR tinha a segunda maior cena Punk no Brasil depois de Sampa?

Entendo que nenhum jornalista pode conhecer tudo que existe. O que esse cara fez da vida dos 10 aos 30 anos? Onde ele estava nos anos 90? Tem gente que não deveria investir tanto na carreira de jornalista. Faltam-lhe certa curiosidade e olhar-apurado, e também certa abertura de espírito para capturar a realidade como se apresenta - além de pontualidade. Posso até parecer demasiadamente cruel escrevendo assim, eu sei….

É apenas rock' n' roll, mas eu gosto.

Agora, o pessoal do papai-noel do Pantanal pode entender de outra forma. O que eu posso fazer?

Eu posso dissecar o texto.

Rodrigo começa descrevendo o sul-mato-grossense (que negócio estranho com esses hifens nesse novo acordo ortográfico, coisa horrível) como uma mistura “churrasco-mandioca-shoyu, reunindo no mesmo prato as influências das gastronomias gaúcha, indígena e japonesa”. Estranho, porque a primeira coisa que me lembro da maternidade (eu sou campo-grandense) é que formamos panelinhas antes mesmo de aprender a falar - e a turma do espíndola não me deixa mentir sozinho. Tem também a turma do rock, do blues, do sertanejo. Não misturamos nada em Campo Grande. Em Campo Grande não de bom tom misturar, causa problema (eu sei porque odeio tribalismo primitivo e as tribos me odiavam na mesma proporção). Tal tradição foi herdada do carioca, exportada para os sulistas, e disseminada no Mato Grosso do Sul.

E para um gaúcho exportado, entender a importância do “do Sul” pode parecer besteira. Mas em Porto Alegre, ninguém parece mesmo dar importância para isso, porque não há outro Rio Grande no Brasil, esse que serve “De modelo a toda Terra” - como cantam no hino.

Gaúcho não entende a importância do “do Sul” quando eu brinco se eles por acaso são potiguar. Também não entendem a incômoda proximidade entre gaúcho e gáucho. Só sei que aprendi lá nas grotas de onde minha mãe veio que nenhum deles é gaúcho, todos são sul-riograndenses. Fazer o quê? Vou eu discutir com um povo que acredita na mitologia criada por uns adolescentes entediados de colégio estadual e a transformaram numa “cultura tradicionalista”?

Aí Rodrigo vai a Cuiabá (essa sim uma cidade infernal). Lembro que Cuiabá é tão quente, tão quente, mais ainda pior porque enterrada em uma depressão que impede a menor rajada de vento. Uma noite fiquei embaixo de uma árvore por uma hora: nenhuma folha se mexeu!

Mas fora o circuíto Cuiabá e Chapada dos Guimarães, não tem muita coisa mesmo.

Assim como Goiás. Acho que tinha um lugar em que íamos a raves. Ou talvez não. Minha lembrança dessa época da minha vida é bastante confusa e nebulosa. Melhor deixar assim. Porém, Goiás é muito importante para o Mato Grosso do Sul: vem de Goiás toda essa poeira vermelha desgraçada que emporcalhava todos os meus tênis.

E também o Leandro & Leonardo, e o Chrystian & Ralf, e o Zezé Di Camargo & Luciano, e o Bruno & Marrone - e o uso indiscriminado do ampersand (no duro!)

Enfim… sigamos. Rodrigo chega a Brasília, onde “aliás, é impossível não pensar no arquiteto na Capital Federal, obviamente”. Sim, Oscar Niemayer é responsável pela revolução do rock dos anos 80. Tivessem ele e Lúcio Costa projetado uma cidade decente, Renato Russo e Dinho Ouro Preto teriam mais coisa para fazer e não inventariam o Rock Nacional. Brasília é tão ruim (morei lá, meu umbigo está enterrado na base da rampa) e me deixou tão traumatizado que todo domingo, enquanto morei no Rio, caminhava até o prédio do Niemayer e o xingava de alguma coisa - faça chuva ou faça sol.

Niemayer nunca trocou a cobertura na praia de Copacabana por um lote no Lago Sul.

O Centro-Oeste é assim. Cheio de paisagens bonitas, gente interessante, coisas a se fazer, muito rica. Mas no UOL aparece o Rodrigo Teixeira. Que nem “do sul” correto é.

Mas que saudade de um bom tereré esse texto me deu. Não vejo a hora de voltar a Campo Grande e comer chipa da rodoviária. Ah é, acabaram com a Rodoviária. Um marco da cidade. E junto acabou a chipa da Roviária. E claro, Rodrigo esqueceu de mencionar isso.

Começo a acreditar que a Campo Grande do Rodrigo não é nada parecida com a Campo Grande do Lefebvre.

Ainda bem.

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