Featured image of post Os Anéis do Poder - Amazon

Os Anéis do Poder - Amazon

Os fãs de Tolkien talvez a assistam, porém não de novo, e de novo, e mais uma vez, antes de decidir ver a versão estendida novamente.

Sempre achei impossível opinar sobre um filme sem tê-lo visto. O mundo mudou, as certezas do passado não existem mais, a revolução cultural aconteceu. Devemos aceitar a conformidade com o novo normal. Portanto, agora é totalmente possível escrever sobre Os Anéis do Poder sem assistir a coisa em si. Também é possível fazer uma série sobre O Senhor dos Anéis sem ler uma única página de J. R. R. Tolkien.

No fim da década de 90 eu enfrentava um dilema: veria ou não os tais anunciados filmes do “O Senhor dos Anéis”? Peter Jackson era desconhecido, embora já tivesse no currículo um filme que gosto muito. Trazer Tolkien para as telas seria um desafio homérico, já que cada fã tinha a sua própria idealização da Terre Média - inclusive eu.

Eu sabia que se assistisse aos filmes eu perderia todo o mundo que imaginei sozinho quando li aquelas milhares de páginas. Ninguém se importa nem um pouco com isso hoje, mas duas décadas atrás “ver ou não o filme” era uma discussão legítima. Vi os filmes diversas vezes, não recordo como era Gandalf na minha imaginação. Preciso até ser lembrado das diferenças da história entre os livros e a película.

Quando Jeff Bezos (em 2017) decidiu criar uma série sobre LOTR fiquei animado. O Silmarillion e Contos Inacabados eram a matéria-prima perfeita para uma obra-prima. Entretanto, qual não foi minha surpresa quando soube que a Amazon tinha adquirido apenas os direitos dos apêndices do livro! Ninguém conseguiria filmar a história judaico-cristã usando apenas as notas de rodapé do novo testamento! Não é assim que obras literárias funcionam!

A receita para o desastre estava pronta. Essa história tornou-se mais interessante do que a série em si.

No começo, a Amazon trabalhou junto com o Tolkien Estate and Trust (o filho de Tolkien, quem controlava a obra do pai), a HarperCollins (que publicava os livros) e New Line Cinema (a divisão da Warner que produziu os filmes). A New Line talvez até permitisse que a série usasse material dos filmes, já que o incrível acordo do Bezos não permitia nem usar a palavra “hobbit”.

O Tolkien Estate (ou seja, Christopher Tolkien, já com seus 90 e tantos anos) também impôs algumas restrições criativas à série. Bezos tinha dois anos para começar a filmar. Christopher Tolkien também tinha poder de veto a qualquer hora.

Tom Shippey, professor de literatura inglesa e o maior especialista nas obras de Tolkien, estava no projeto. Somente eles dois foram suficientes para bancar as expectativas dos fãs e evitar que as desastrosas contratações para a produção e roteiro da série

Quer dizer, até Christopher morrer em janeiro de 2020. Em abril de 2020 a Amazon demitiu Tom Shippey. Então a Amazon resolveu lançar um trailer depois do outro desconstruindo toda e qualquer tradição da literatura de Tolkien, defendendo com unhas e dentes as decisões criativas (ou nem tão criativas assim) da sua equipe. O resultado foi a guerra.

De um lado Jeff Bezos, um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, com centenas de profissionais e especialistas em todas as áreas do entretenimento, decidido a mostrar ao mundo sua maravilha criativa que reescreveu a maior obra literária mitológica do século XX.

Do outro, milhões de anônimos pelo mundo com uma única coisa em comum: eles leram os livros de J. R. R. Tolkien. O resultado desse conflito era previsível: o mal não é capaz de criar algo novo, só pode distorcer e destruir o que foi inventado ou feito pelas forças do bem.

Os Anéis do Poder não é uma adaptação de Tolkien. Ela é uma obra original da Amazon e uma série de televisão burra.

Se a sigla LOTR não estivesse grudada no título ninguém daria a menor bola. As decisões criativas da Time Amazon é apenas um trabalho mal feito com uma agenda moderninha e moralizante, tão comum nos dias de hoje. Mas essas crianças mimadas não querem apenas um bilhão de dólares para seus surtos literários. Eles querem também o aplauso da platéia, de toda os membros do público, sem exceção alguma.

Os fãs de Tolkien simplesmente ignoram essa série. Talvez a assistam por curiosidade, porém não vou assistir de novo, e de novo, e mais uma vez, antes de decidir ver a versão estendida dos filmes novamente.

Toda a polêmica sobre racismo ou preconceito é apenas propaganda e marketing. A Terra Média seguiu com sua história depois da Guerra do Anel. Nós seguiremos com a nossa.

Eu me ficarei velho, sentado em uma cadeira, fumando meu cachimbo eletrônico, lamentando com meus bisnetos da época quando “ver ou não o filme” era uma discussão legítima. Eles me olharão com desconfiança e pena. Se a vida me reservar alguma alegria, talvez o mais curioso dos pequenos resolva pegar aquela coisa de papel obsoleta e pesada na biblioteca.

Espero que ele leia e goste, como eu fiz no século passado. Porque se ele gostar, tem mais dois tomos dessa história esperando por ele na estante.

Todos os direitos reservados. © 2022
Criado com Hugo
Tema Stack desenvolvido por Jimmy