A revista Crusoé contra o site O Antagonista

Se a Crusoé brigasse com o O Antagonista seria uma situação freudiana interessante.

Eu fiquei muito animado assim que Diogo Mainardi anunciou o lançamento da revista Crusoé e do site Antagonista. Bom jornalismo no Brasil é escasso, não por falta de jornalistas (nossa reserva estratégica é suficiente) - o problema é não ter veículos de notícias em quantidade suficiente. Quanto mais melhor. Entretanto, essa não é a lacuna mais importante no jornalismo brasileiro. O que falta no Brasil é boa fofoca.

Sim, falta bons fofoqueiros no Brasil. Os fofoqueiros brasileiros só se interessam por artistas (e tanto os artistas quanto os fofoqueiros deles são muito ruins). Não existe fofoca política, muito menos fofoca intelectual. As colunas políticas dos jornalzões brasileiros podiam ser fofoca, mas não são: são apenas colunistas pautados por equipes de Relações Públicas. Eu quero mesmo é fofoca das boas.

O que faz uma fofoca ser boa? Bom, a primeira característica de uma boa fofoca é ela ser verdade. Fofoqueiros incompetentes inventas histórias, fofoqueiros profissionais apenas relatam a verdade. Se for fofocar, ao menos diga a verdade. A segunda característica da boa fofoca é ser relevante agora. Não adianta fofocar coisas de 10 anos atrás se a fofoca não gera resultado na situação atual do fofocado. Aliás, essa é a terceira e mais importante característica da boa fofoca: ela precisa incomodar demasiadamente o alvo hoje.

Eu estou sozinho nessa história, mas não desisto da boa fofoca, porque penso no bem da nação e da cultura. O Diogo Mainardi nunca gostou muito da minha idéia de um TMZ à brasileira: muito processo e pouco retorno, ele disse. Eu retruquei, fofoca também pode parecer profissionalizada, vide o Morgan Piers, por exemplo. Também podíamos acabar com as eleições e escolher o presidente em um programa igual ao American Idol. A única coisa que brasileiro é especialista é ser auditório. Diogo também não gostou.

Minha idéia nunca vai pegar. O site “O Antagonista” entrou no ar, fez um pouco de fofoca, mas agora parou. Parece servir como um arquivo de pautas para a próxima edição da revista Crusoé. Na sexta-feira a equipe faz aquele compilado explicando o que aconteceu na semana. O trabalho jornalistico é excelente. Só é muito chato para quem acompanha o site e possui mais de dois neurônios funcionando ao mesmo tempo.

O futuro da Crusoé e do O Antagonista

Mas nem tudo são flores por lá. A publicidade e o marketing não sabe o que fazer com bons jornalistas, e não é diferente na Crusoé. Não sei o quanto eles gastam com fórmulas de lançamento e copywriting melodramático. Quem sabe é um mau-hábito herdado da Empiricus.

Diogo, Mario e Bruno são seres jurássicos (e isso é sim um elogio). E o bom jornalismo nunca saberá fazer boa propaganda. Assim como todos os jornais, tem aquela chamada a ação motivacional e emotiva:

LEIA AQUI a íntegra da coluna; assine a Crusoé e apoie o jornalismo independente.

Entretanto, há uma saída (como se eles precisassem). A melhor forma de atrair assinantes é colocar a idéia do Mario Sabino em prática: Em fuga do Brasil - Crusoé

Escreve Mario:

A TV francesa está cheia de atrações boçais e vulgares também, mas ainda sobra bastante espaço para a discussão intelectual refinada, os debates políticos de ótimo nível e reportagens de fôlego, assim como ocorre em outros países ocidentais com grande tradição cultural. Há de se reconhecer, contudo, que La Grande Librairie é uma emissão que só poderia existir na França (assim como o extinto Bouillon de Culture , ou Caldo de Cultura, de Bernard Pivot), país onde a literatura ocupa um papel central na sociedade.

Eu sei que o Brasil, em tradição cultural, não se compara à França. Mas ainda nos resta alguma cultura. O Mario sabe, já que contratou o Alexandre Soares Silva. Não é um monte, mas é alguma. E ainda é barata. Os melhores escritores brasileiros sempre souberam que, para sobreviver, precisavam vender o corpo ou a pena: ou são funcionários públicos, ou jornalistas. Com apenas algumas centenas de reais por texto, a Crusoé pode contratar la grande librairie e fazer o seu boulillon de culture.

Não se iludam com engajamentos, porque isso aí é pura enganação.

Eu sei que é preciso ter liberdade de imprensa, fiscalizar o poder, mostrar as ações dos governantes e dos governados, se suas autoridades e dos comandados cidadãos. Ainda assim tudo isso só vai gerar resultado se alguém ler o que está escrito. E ler não é o forte de uma cultura (de nenhuma cultura, na verdade).

Repito: cultura é um produto relativamente barato no Brasil. Dá pra investir em centenas deles e, se um conseguir sucesso, não vai cobrir os custos mas já é alguma coisa. Não vai gerar o lucro de uma “Betina”, por exemplo, mas, como há algo espiritualmente satisfatório em se ter um animal de estimação, ter uma coluna de cultura também tem lá seus encantos: são tão fofinhos e queridos que é muito legal ficar dando cafuné e brincar de pega-bolinha.

E todos os bons escritores sabem fazer truques e se fingirem de morto - e também adoram uma fofoca discussão intelectual refinada e debates políticos de ótimo nível.

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