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O storytelling através da herança do pós-modernismo francês

Storytelling podem servir para o mal é um conceito relativamente novo.

A herança mais chata dos pós-modernistas é a cultura da demolição. Sei que a turma que adora um Derrida acredita que é um método de desconstrução; eles estão errados. As abordagens críticas pós-moderna dariam um belo programa no History Channel (e para manter o padrão, deveria passar logo após “Alienígenas do Passado”). Não foram eles os primeiros a identificarem as partes de um discurso, de uma filosofia, de uma ideologia. A questão fundamental do pós-modernista é a capacidade de descontruir e sua incompetência em construir algo melhor. Então chegamos ao assunto do post, as narrativas (ou storytelling).

Há uma “narrativa” se desenvolvendo que coloca a culpa da polarização atual no storytelling. De alguma forma, narrativas são as culpadas (ao menos em parte) pela proliferação de bobagens na internet e seu maléfico reflexo na vida real. O cerne é: histórias bem contadas causam um impacto profundo no homem, e esse impacto hoje revelaria ser algo nocivo porque nos contam histórias falsas e, portanto, todos temos que ter cuidado com histórias bem contadas.

A idéia que narrativas podem servir para o mal é um conceito relativamente novo, como mostrou o filósofo contemporâneo Platão, o que ele chamou de sofismo. Aristóteles, outro pensador contemporâneo, mas menos conhecido, também identificou e descontruiu essa história sofista para tentar diferenciar o bom do mau discurso.

Mas ao que me parece, ninguém conseguiu desenvolver o assunto de forma satisfatória, cabendo aos pós-modernistas a responsabilidade de lançar luzes na questão: ou seja, todo discurso é ruim (menos o deles) porque, segundo Derrida, a “desconstrução” não poderá definir-se, porque os instrumentos, que a permitem descrever, encontram-se, por sua vez, no gesto desconstrutivo. Assim, poderemos procurar a sua descrição justamente por aquilo que é ou por aquilo que não é.

E se depender da cultura hoje, essa seria a história oficial.

Não sei quem foi o idiota que pegou o livro 1984 e resolveu fazer dele um manual de instruções. Se levarmos a cabo tal linha de raciocínio, logo mais termos a polícia de pensamento e o ministério da verdade.

Ao menos para os seres humanos, storytelling é a melhor forma de passar informação para frente e ter alguma segurança de que ela ficará guardada na cabeça (tanto na sua quanto na do outro). O que o outro fará com essa informação é problema dele. Pessoas inteligentes pensam quando recebem informações. Isso independe da formação acadêmica do sujeito. É mais fácil convencer e enrolar gente *que se acha inteligente do que passar a perna no matuto do interior. O que diferencia um do outro é a arrogância: acreditar ser o dono da verdade e acreditar que uma força superior lhe incumbiu de salvar a humanidade, seja a força Deus ou Derrida.

Donos de cultos sabem disso. Pós-modernistas sabem disso. Por isso é muito, mas muito mais fácil doutrinar gente arrogante do que os humildes - principalmente no meio acadêmico. Entretanto, como massa de manobra é volúvel, eles precisam manter seu público isolado, longe de qualquer idéia diferente, fora do alcance de qualquer narrativa que anule o efeito de culto em sua audiência.

Por isso querem acabar com o debate. E logo mais com o storytelling. A questão nunca foi criar empatia e melhorar a humanidade. O motivo é mais cliché, é apenas controle.

Claro que a internet e as redes sociais fazem a sua parte. Todo mundo agora faz storytelling. Descobriram que para começar a contar um história não é preciso talento nato. E quando podem veicular essas bobeiras para milhões de pessoas, é claro que a minoria da minoria que adora esse tipo de ficção é a validação do talento e do gênio da nova celebridade. E quem vai ir contra esse sucesso, não é?

Por mais estridente que seja a minoria, ela é apenas isso: minoria. Suas opiniões não valem e nunca valerão para os bons contadores de história. Mas cuidado, você precisa deixar isso muito claro, ou a minoria terá esperança que conseguirão vencê-lo. Todo silêncio é um pecado nessas ocasiões.

Condescender com esse discurso raso não impedirá que bons contadores de história contem boas histórias e alcancem as pessoas. Claro, retarda demais o processo, com certeza demora ainda mais para desfazer toda a bagunça criada, entretanto um dia se resolve. No máximo essas pessoas “compram” tempo para alguém lucrar com essa discussão, e apenas isso.

Por mais irritante que tudo isso seja, saiba que no futuro essa gente mesquinha será apenas isso, gente mesquinha seguida por gente sem os neurônios mais importantes.

Ir contra a maré pode trazer consequências desconhecidas pelos bons storytellers, como a polêmica, as dificuldades financeiras, o ostracismo e a angustia da dúvida, todos já sanados pelos estudiosos do assunto e pelos diversos cursos oferecidos no mercado. Ler, estudar, contemplar seus próprios pensamentos durante longas caminhadas? Esqueça isso. Como já todos os publicitários bem sucedidos do sudeste afirmam, o fracasso é apenas para os perdedores e para os despreparados.

Eu não sei nem como terminar esse texto. Sair do ponto A e levar o leitor para o ponto B, não faço idéia (ainda mais quando devo ter confundido Derrida com Marcuse) ou usando o velho acordo ortográfico da Língua Portuguesa - e nada disso tem a mínima importância. O que importa é que eu adoro ouvir boas histórias, e isso é cada vez mais difícil de se achar agora.

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